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OVNI na Bahia em 1963: o que os documentos americanos sobre o caso de Conde realmente dizem ⏱ 12 min

Imagem de capa: OVNI na Bahia em 1963: o que os documentos americanos sobre o caso de Conde realmente dizem

Poucos casos da ufologia brasileira permitem uma reconstituição documental tão completa quanto o episódio ocorrido em Conde, no litoral norte da Bahia, em novembro de 1963.

Em agosto de 2026, o governo dos Estados Unidos divulgou uma nova leva de arquivos sobre fenômenos anômalos não identificados. Entre eles estavam os documentos referentes ao caso baiano.

Eles permitem acompanhar, dia a dia, o percurso completo de uma informação extraordinária: de onde ela saiu, por quantas instituições passou e como terminou.

O caso chama atenção não apenas pela natureza do relato, mas principalmente porque autoridades de dois países chegaram a registrar e investigar a ocorrência.

E aqui começa a parte mais interessante — e também mais delicada — da história.

O que teria acontecido em Conde?

A origem do caso é precisa e está registrada em documento.

Às 23h30 do dia 8 de novembro de 1963, a Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, transmitiu uma notícia sobre o município de Conde.

A transmissão foi captada pelo Foreign Broadcast Information Service (FBIS), serviço americano de monitoramento de emissoras estrangeiras, e transcrita em inglês no dia seguinte.

O texto do informe, identificado nos arquivos como EOP-UAP-D001, descreve o seguinte:

Esse é o relato original, na íntegra. Não há mais nada.

Nenhuma fotografia. Nenhuma perícia. Nenhuma testemunha identificada. Nenhuma confirmação independente.

O documento americano registra uma notícia de rádio — não um objeto.

Atenção a este detalhe: o corpo era humano

Este ponto é fundamental e costuma se perder nas versões que circulam pela internet.

O relato de 1963 não descrevia um alienígena.

Descrevia um corpo humano, com trajes pesados e símbolos indecifráveis.

A diferença importa muito.

Estamos em novembro de 1963, no auge da corrida espacial. Um "corpo humano em traje pesado, com inscrições estranhas" dentro de uma esfera metálica é uma descrição muito mais compatível com o imaginário de cosmonautas e cápsulas espaciais do que com o de discos voadores.

Por que os Estados Unidos se interessaram pelo episódio?

O aspecto mais fascinante do caso é a velocidade com que a informação percorreu o aparato do governo americano.

A cadeia documentada:

O envolvimento do FBIS explica como uma notícia de rádio brasileira entrou no circuito burocrático americano: o serviço existia justamente para monitorar, traduzir e analisar transmissões estrangeiras. Ele havia sido incorporado à CIA em 1947.

Isso significa que o episódio aparece hoje entre documentos ligados à inteligência americana.

Mas não significa que a CIA tenha confirmado coisa alguma.

Significa que uma emissora de rádio brasileira foi monitorada — o que era exatamente a função daquele serviço.

A resposta veio da Bahia

Enquanto a informação subia pela burocracia americana, alguém foi até Conde.

Vários alguéns, na verdade.

O documento decisivo é o despacho diplomático A-628, datado de 20 de novembro de 1963, enviado pela Embaixada dos Estados Unidos no Rio ao Departamento de Estado, identificado nos arquivos como DOS-UAP-D002.

Ele reproduz a resposta do cônsul americano em Salvador, Harold Midkiff, transmitida pelo telegrama nº 157, de 14 de novembro:

Midkiff acrescentou que nenhum objeto daquele tipo foi visto por ninguém na área, segundo repórteres de jornais e outras pessoas que se deslocaram até lá antes mesmo de receberem os relatórios da investigação.

O secretário de Segurança Pública da Bahia chegou a especular sobre a possibilidade de um balão meteorológico — mas nem esse avistamento pôde ser verificado.

Os jornais baianos foram até lá

O cônsul não se limitou a telegrafar. Enviou também dois recortes de jornais de Salvador, que constam do arquivo americano.

Diário de Notícias, 9 de novembro de 1963

Segundo o documento americano, a reportagem registrava que o Ministério da Aeronáutica negava categoricamente a existência de qualquer objeto estranho em Conde.

Esta é a única participação documentada de uma autoridade brasileira no caso — e ela foi um desmentido, emitido em menos de 24 horas.

Jornal da Bahia, 11 de novembro de 1963

O segundo recorte é ainda mais eloquente. O título foi traduzido nos arquivos americanos como "The Airship that wasn't there" — algo como "A aeronave que não estava lá".

O jornal estava ironizando a história.

E o repórter enviado ao município registrou que o único aspecto realmente digno de nota da viagem foi um subproduto inesperado: ele conseguiu enviar seu telegrama para a redação a partir da repartição telegráfica federal de Conde, por meio de um antigo transmissor de código Morse.

Um detalhe curioso no próprio documento

O A-628 traz uma particularidade que vale mencionar antes que ela gere confusão em textos futuros.

Embora o documento tenha sido elaborado em 20 de novembro de 1963 — a data aparece no rodapé, junto ao nome do redator — sua linha de assunto registra o suposto avistamento como tendo ocorrido em 8 de novembro de 1964.

O restante da documentação deixa claro que se trata de erro material. O informe do FBIS é de 1963, o telegrama de referência é de 14 de novembro de 1963, e o próprio despacho foi datilografado em novembro de 1963.

É um erro de datilografia, não um segundo incidente.

O documento é verdadeiro. A história é outra questão.

Essa é a principal lição proporcionada pelo caso Conde.

Existe uma tendência, especialmente nas redes sociais, de transformar documentos oficiais em uma espécie de "prova definitiva".

Um arquivo do governo contendo a palavra UFO, UAP ou extraterrestrial não significa necessariamente que o governo tenha confirmado a existência de uma nave extraterrestre.

O documento pode simplesmente registrar:

O caso de Conde é o exemplo perfeito: os documentos são absolutamente autênticos, e o que eles registram é um desmentido.

O contexto de 1963

O ano é importante.

Estamos falando de um período em que a Guerra Fria estava no auge e os Estados Unidos mantinham enorme interesse em fenômenos aéreos potencialmente relacionados à tecnologia militar ou espacial estrangeira.

O National Aeronautics and Space Council, que pediu a verificação do caso, havia sido criado pelo National Aeronautics and Space Act de 1958. Entre seus integrantes previstos em lei estavam o presidente dos Estados Unidos, os secretários de Estado e de Defesa, o administrador da NASA e o presidente da Comissão de Energia Atômica.

Não era um grupo dedicado a discos voadores. Era a estrutura de coordenação da política espacial americana em plena corrida contra a União Soviética.

Isso explica a velocidade da reação — e também por que a descrição de "um corpo humano em traje pesado dentro de uma esfera metálica" acionaria alarmes em Washington.

Um objeto assim poderia ser muitas coisas. Uma delas seria hardware espacial soviético.

O que realmente podemos afirmar?

Depois de mais de seis décadas, o caso se separa com clareza em três níveis.

FATO DOCUMENTAL

Existem registros históricos autênticos de uma transmissão de rádio ocorrida em 8 de novembro de 1963 e da investigação que ela desencadeou. Esses registros passaram pelo FBIS, pelo National Aeronautics and Space Council, pelo Departamento de Estado, pela Embaixada no Rio, pelo consulado em Salvador, pelo Departamento de Defesa, pela Força Aérea americana e pela NASA.

RELATO

Existiu uma narrativa radiofônica descrevendo uma esfera metálica com janelas de vidro espesso, uma cratera de quatro metros e um corpo humano com inscrições indecifráveis.

RESULTADO DA APURAÇÃO

Nenhuma testemunha foi localizada. Nenhum destroço foi encontrado. Nenhuma cratera foi verificada. O Ministério da Aeronáutica negou categoricamente o episódio. Dois jornais baianos foram ao município e não encontraram nada. O consulado americano concluiu que a história havia sido fabricada no Rio de Janeiro.

Conclusão: o mistério não é o objeto — é a notícia

Seria confortável encerrar este texto dizendo que o caso de Conde permanece entre aquilo que conseguimos provar e aquilo que ainda não conseguimos explicar.

Mas isso não seria verdade.

Os documentos não deixam o caso em aberto. Eles o encerram, e o encerram rápido: doze dias separam a transmissão da Rádio Tupi do despacho consular que a classifica como fabricação.

Pelos critérios que aplicamos aqui, o suposto OVNI de Conde não é um caso "não confirmado". É um caso desmentido.

E, ainda assim, ele é excelente.

Porque a pergunta interessante nunca foi "o que caiu em Conde?".

A pergunta interessante é: como uma notícia sem nenhuma base saiu de uma emissora carioca às 23h30 e, cinco dias depois, estava sobre a mesa do conselho espacial da Presidência dos Estados Unidos, a caminho da Força Aérea e da NASA?

Isso é um estudo de caso sobre desinformação décadas antes da internet.

Uma informação extraordinária, sem fonte identificada, viajou por rádio, foi captada por um serviço de inteligência, subiu por três níveis de governo, atravessou um oceano — e foi desmontada por um cônsul e por dois repórteres baianos que fizeram a coisa mais simples do mundo.

Foram até lá olhar.

Existe uma lição nisso, e ela vale para 1963 tanto quanto para hoje.

Essa origem nunca foi estabelecida.

Pesquisas futuras em hemerotecas brasileiras, nos acervos remanescentes da Rádio Tupi e em arquivos do antigo Ministério da Aeronáutica talvez ainda possam identificar de onde partiu a notícia e como ela chegou à emissora.

Até lá, o caso de Conde permanece como aquilo que os documentos mostram que ele foi: uma das histórias falsas mais bem documentadas da ufologia brasileira.

Fontes e referências

Documentos primários (governo dos Estados Unidos)

EOP-UAP-D001 — Informe do Foreign Broadcast Information Service registrando transmissão da Rádio Tupi de 8 de novembro de 1963. Autoridade de desclassificação NNO968063.
war.gov/medialink/ufo/release_05/Aug_07/documents/EOP-UAP-D001_NASC-Inquiry-into-Bahia-Brazil-Incident_November-13-1963.pdf

DOS-UAP-D002 / A-628 — Despacho diplomático da Embaixada dos EUA no Rio de Janeiro ao Departamento de Estado, 20 de novembro de 1963, com a resposta do cônsul Harold Midkiff. Desclassificado sob NND 939551.
war.gov/medialink/ufo/release_05/Aug_07/documents/DOS-UAP-D002_Diplomatic-Cable_Brazil_November-20-1963.pdf

Fontes contemporâneas citadas nos documentos

Diário de Notícias (Salvador), 9 de novembro de 1963 — registro do desmentido do Ministério da Aeronáutica.
Jornal da Bahia, 11 de novembro de 1963 — reportagem produzida no município de Conde.

Contexto institucional

National Archives — histórico do Foreign Broadcast Information Service.
National Aeronautics and Space Act de 1958 — composição do National Aeronautics and Space Council.

Nota Editorial

Este artigo é baseado em relatos documentados, investigações oficiais, depoimentos de testemunhas e fontes acadêmicas e jornalísticas verificáveis, listadas ao final do texto.

O Casos Ufológicos não afirma nem nega a existência de vida extraterrestre ou de tecnologia de origem não humana. Nossa missão é apresentar o que está documentado e deixar que você forme sua própria conclusão.

Erros, omissões ou sugestões: contato@casosufologicos.com.br

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