Uma Ilha no Coração do Pará
No segundo semestre de 1977, uma onda de relatos sobre luzes desconhecidas atingiu diferentes localidades do Pará. Entre os lugares mencionados nas comunicações militares e nos relatos de moradores estavam Santo Antônio do Tauá, Vigia, Santo Antônio do Ubintuba e, com especial intensidade, a ilha de Colares.
Foi nesse cenário que surgiu um dos episódios mais conhecidos da história da ufologia brasileira: o chamado Chupa-Chupa.
Moradores descreviam luzes que apareciam durante a noite, deslocavam-se pelo céu e, em alguns relatos, projetavam feixes luminosos sobre pessoas.
A situação provocou medo entre a população.
Famílias passaram a permanecer acordadas durante a noite. Algumas pessoas acendiam fogueiras, soltavam fogos ou faziam barulho na tentativa de afastar as luzes. A imprensa local acompanhou o fenômeno, enquanto autoridades municipais procuravam auxílio das Forças Armadas.
A repercussão chegou ao I Comando Aéreo Regional (I COMAR), sediado em Belém.
Em 20 de outubro de 1977, uma equipe da 2ª Seção de Informações do I COMAR deslocou-se para a região.
Começava oficialmente aquilo que ficaria conhecido como Operação Prato.
E, ao contrário da imagem popular de uma operação militar secreta dedicada exclusivamente à procura de extraterrestres, os documentos mostram algo mais complexo.
Havia militares entrevistando moradores.
Havia registros de observações.
Havia fotografias.
Havia croquis.
Havia instrumentos de observação.
Havia relatórios.
E havia também dúvidas.
Muitas dúvidas.
Quando os Militares Foram Investigar
A primeira missão militar ocorreu entre 20 de outubro e 11 de novembro de 1977.
A equipe inicial era formada por três agentes da 2ª Seção do I COMAR: o sargento João Flávio de Freitas Costa, o sargento Moacir Neves de Almeida e o sargento Álvaro Pinto dos Santos.
Eles foram enviados para investigar os relatos e observar diretamente aquilo que os moradores estavam descrevendo.
Os equipamentos utilizados incluíam máquina fotográfica, teleobjetiva, binóculo, teodolito meteorológico, gravador e rádios portáteis.
Isso é importante.
A Operação Prato não foi apenas uma coleção de histórias contadas décadas depois.
Existem documentos produzidos durante o período da investigação.
O acervo relacionado à operação inclui relatórios do I COMAR, registros de observações, depoimentos, documentos do antigo Serviço Nacional de Informações e material fotográfico. Parte desse acervo foi posteriormente disponibilizada ao público.
A primeira missão também contou com a participação de médicos da Aeronáutica, que chegaram à região nos dias 26 e 27 de outubro.
A investigação, portanto, não estava limitada à observação do céu.
Os militares também procuraram compreender os relatos de pessoas que afirmavam ter sido atingidas pelos chamados raios luminosos.
O Que Era o "Chupa-Chupa"?
O nome surgiu da própria população.
"Chupa-chupa" tornou-se uma expressão popular utilizada para descrever as luzes que, segundo os relatos, aproximavam-se das pessoas e projetavam feixes luminosos.
Também apareceu a expressão "luz vampira".
A explicação popular era assustadora.
As pessoas acreditavam que as luzes estariam extraindo sangue ou energia das vítimas.
Mas os documentos militares são mais cuidadosos.
Eles registram aquilo que as pessoas afirmavam ter experimentado, sem necessariamente confirmar a interpretação dada pelos moradores.
Essa diferença é fundamental.
Um relatório dizendo que determinada pessoa afirmou ter sido atingida por uma luz não significa que a Força Aérea tenha concluído que uma entidade desconhecida realmente atacou aquela pessoa.
É justamente essa separação entre relato, observação militar e conclusão que torna os documentos tão interessantes.
As Luzes que Apareciam Sobre Colares
Os relatos reunidos pela investigação apresentam uma variedade considerável de formas e cores.
Algumas testemunhas descreveram objetos circulares.
Outras falaram em estruturas cilíndricas.
Também aparecem descrições de luzes sem forma claramente definida.
As cores variavam entre amarelo, vermelho, azul, verde e combinações dessas tonalidades.
Em alguns registros, os observadores estimaram distâncias, altitudes, tamanhos aparentes e velocidades.
Um dos aspectos mais interessantes é que os próprios militares também fizeram observações.
Na primeira missão, há registros de objetos descritos como indefinidos, circulares ou luminosos, com estimativas de altitude que variavam significativamente.
Em determinado registro, por exemplo, um objeto foi classificado como circular, de coloração azulada, observado sobre a água e com velocidade estimada superior a 300 km/h.
Em outro, uma luz amarela-avermelhada foi registrada a cerca de 100 metros de altitude, segundo a estimativa apresentada no documento.
Esses números devem ser tratados como estimativas dos observadores, e não como medições instrumentais de precisão.
Ainda assim, mostram que os militares estavam tentando registrar o fenômeno de maneira estruturada.
As Vítimas e os Relatos de Ferimentos
É aqui que o caso Colares se torna ainda mais controverso.
Moradores afirmavam que determinadas luzes eram capazes de causar efeitos físicos.
Entre os sintomas relatados estavam:
Paresia ou amortecimento parcial do corpo.
Dor de cabeça.
Tontura.
Fraqueza ou astenia.
Tremores.
Sensação de calor.
Queimaduras superficiais.
Pequenas marcas ou perfurações na pele.
Esses relatos não permaneceram apenas nas conversas entre moradores.
A equipe da Operação Prato entrevistou a médica Wellaide Cecim Carvalho, então responsável pela unidade sanitária de Colares.
No relatório militar, a médica mencionou quatro pacientes que havia atendido e descreveu sintomas como paresia, cefaleia, astenia, tonturas, tremores generalizados, queimaduras de primeiro grau e pequenas marcas de perfuração.
Esse documento é uma das peças mais importantes para compreender a dimensão médica do caso.
Mas também é necessário fazer uma distinção que frequentemente desaparece nas versões populares da história.
A médica não identificou a causa das lesões como sendo um objeto extraterrestre.
Ela relatou sintomas observados em pacientes que afirmavam ter sido atingidos por luzes.
Em seu depoimento registrado pela equipe militar, a própria médica chegou a considerar que os sintomas poderiam estar relacionados a algum tipo de feixe luminoso, mas não estabeleceu sua origem.
Isso é muito diferente de afirmar que a medicina teria comprovado um ataque extraterrestre.
O Que a Médica Realmente Relatou
O depoimento de Wellaide Cecim é especialmente importante porque foi registrado durante a própria investigação.
Segundo o documento, os quatro pacientes apresentavam sintomas físicos que, na avaliação da médica, iam além de uma simples crise nervosa.
Entre os elementos descritos estavam queimaduras de primeiro grau e pequenas perfurações.
Os homens apresentavam as marcas principalmente na região do pescoço, enquanto um dos casos femininos apresentava lesão na região do seio.
Em relatos posteriores, a médica forneceu descrições mais amplas de outros sintomas.
Mas, para uma análise histórica, o depoimento contemporâneo de 1977 é particularmente importante.
Ele permite separar aquilo que foi registrado durante a investigação daquilo que foi acrescentado ou reinterpretado décadas depois.
E essa separação é essencial.
Essa é uma diferença pequena para quem procura uma história extraordinária.
É uma diferença gigantesca para quem procura evidência.
Quantas Pessoas Foram Realmente Feridas?
Aqui aparece uma das maiores distorções do caso.
Ao longo das décadas, tornou-se comum encontrar versões segundo as quais centenas de pessoas teriam sido atacadas ou feridas pelas luzes.
Os documentos disponíveis, entretanto, são muito mais específicos.
Durante a primeira missão, os militares colheram dezenas de depoimentos em Colares, Tauá e Vigia.
Uma fonte que reproduz os registros da operação aponta 39 pessoas entrevistadas na primeira missão, enquanto outras compilações e cruzamentos documentais apresentam conjuntos diferentes de depoimentos conforme o documento considerado.
No caso específico de Wellaide Cecim, o relatório militar menciona quatro pacientes atendidos por ela.
Isso não significa que apenas quatro pessoas em toda a região tenham relatado sintomas.
Significa que quatro casos aparecem diretamente associados ao depoimento médico registrado naquele documento.
Essa precisão é importante.
A história de Colares não precisa de números inflados para ser intrigante.
Os próprios documentos já são suficientemente incomuns.
Uma Segunda Missão
A investigação não terminou com a primeira missão.
Uma segunda missão militar ocorreu entre 25 de novembro e 5 de dezembro de 1977.
Dessa vez, a equipe ficou concentrada principalmente na sede de Colares e realizou novas observações e entrevistas.
O capitão Hollanda também participou dessa fase, chegando à região em 29 de novembro.
Os registros dessa segunda missão apresentam uma característica interessante.
Embora os relatos de corpos luminosos continuassem, a documentação dessa etapa não reproduz necessariamente a mesma concentração de alegações de ataques físicos encontrada nos relatos populares sobre o período anterior.
Isso mostra novamente como a história é mais complexa do que a narrativa de "luzes atacando pessoas todas as noites".
Havia diferentes tipos de relatos.
E eles mudavam ao longo do tempo.
Quantos Fenômenos Foram Registrados?
A quantidade de registros associados à Operação Prato é frequentemente utilizada para demonstrar a importância do caso.
Mas é necessário saber exatamente o que está sendo contado.
Um dos documentos conhecidos como Resumo Sintético-Cronológico reúne 284 registros referentes a 1977 e 1978, sendo 195 relacionados a 1977 e 89 a 1978.
Já o documento denominado Registro de Observações de OVNI, associado ao I COMAR, reúne 130 registros, sendo 82 de 1977 e 48 de 1978.
Esses conjuntos não são simplesmente duas listas idênticas.
Eles possuem critérios e abrangências diferentes.
O primeiro reúne um conjunto mais amplo de observações e relatos.
O segundo representa um conjunto específico de registros de observações considerados relevantes pela estrutura militar.
Portanto, não é correto simplesmente afirmar que "a FAB registrou 284 OVNIs".
O número corresponde a um conjunto documental de observações e relatos, e não necessariamente a 284 objetos físicos distintos.
Essa diferença parece burocrática.
Mas é justamente esse tipo de detalhe que separa pesquisa histórica de lenda.
Colares Era Realmente o Centro do Fenômeno?
Dentro dos registros analisados, Colares aparece como um dos principais pontos de concentração.
Em uma compilação do material da operação, 58 das 122 observações de 1977 atribuídas às equipes A2 e agentes acompanhados de civis estavam associadas a Colares. A Baía do Sol, na ilha de Mosqueiro, aparecia com 39 observações no mesmo conjunto.
Isso ajuda a explicar por que Colares acabou se tornando o símbolo do fenômeno.
Não era apenas uma história contada por uma única família.
Havia relatos espalhados pela região.
Mas também havia uma concentração significativa de observações em determinados pontos.
Os militares estavam acompanhando justamente essas áreas.
As Fotografias da Operação Prato
A existência de fotografias é um dos elementos mais conhecidos da Operação Prato.
Os agentes levaram equipamento fotográfico para registrar aquilo que observavam.
Algumas imagens posteriormente associadas à operação mostram pontos luminosos contra o céu.
Para os defensores da hipótese extraterrestre, essas fotografias representam uma parte importante do conjunto de evidências.
Mas existe um problema.
Fotografar um ponto luminoso no céu não significa identificar sua natureza.
Uma fotografia pode demonstrar que havia uma fonte luminosa.
Ela não necessariamente revela se essa fonte era uma aeronave, planeta, estrela, satélite, fenômeno atmosférico ou outra coisa.
Existe ainda uma controvérsia documental importante.
Em 2007, Fernando Costa, filho do sargento Flávio Costa, declarou que havia manipulado e ampliado pontos luminosos durante o processo de revelação de alguns filmes fotográficos da operação. Essa alegação é parte da história documental do caso e deve ser considerada quando se avaliam as fotografias.
Isso não permite concluir automaticamente que todas as fotografias sejam falsas.
Também não permite tratá-las como prova fotográfica incontestável.
A conclusão responsável é mais simples:
as fotografias existem, mas sua interpretação exige análise individual de cada imagem e de sua cadeia documental.
O Relatório que Mostra os Militares Também Sem Respostas
Um dos aspectos mais fascinantes da Operação Prato é que os documentos não apresentam uma conclusão simples.
Um relatório do SNI produzido em novembro de 1977 descrevia a investigação em andamento e mencionava que as luzes haviam sido fotografadas.
Mas também registrava que não existia consenso entre os integrantes da equipe sobre aquilo que havia sido observado.
Essa informação é extremamente reveladora.
Porque significa que os investigadores não estavam necessariamente diante de um grupo de militares convencidos de que haviam encontrado espaçonaves extraterrestres.
Havia divergência.
Havia interpretações diferentes.
Havia observações difíceis de explicar.
E havia também a possibilidade de erros de identificação.
A documentação, portanto, preserva algo muito mais interessante do que uma suposta confirmação.
Ela preserva a incerteza.
O Caso de Vênus
Um dos episódios mais conhecidos envolvendo as fotografias da Operação Prato é particularmente instrutivo.
O relatório do SNI menciona que algumas luzes haviam sido fotografadas, mas que uma das imagens consideradas mais impressionantes teria sido atribuída a Vênus pelo próprio chefe da operação.
Isso demonstra que os próprios investigadores consideravam explicações astronômicas para determinadas observações.
É uma informação frequentemente esquecida nas versões mais populares da história.
A Operação Prato não consistia simplesmente em militares fotografando luzes e classificando tudo como extraterrestre.
Havia tentativa de distinguir fenômenos conhecidos daqueles que permaneciam sem identificação.
Nem sempre essa distinção era fácil.
E nem sempre os documentos permitem saber com certeza qual foi a conclusão final para cada observação.
O Papel do Capitão Hollanda
O capitão Uyrangê Hollanda tornou-se posteriormente uma das figuras mais conhecidas associadas à Operação Prato.
Ele participou da investigação e, décadas mais tarde, concedeu entrevistas nas quais falou sobre suas experiências durante a operação.
Seus relatos ajudaram a popularizar o caso entre os pesquisadores brasileiros.
Mas existe uma distinção importante.
Os depoimentos posteriores de Hollanda são fontes históricas sobre sua memória e interpretação dos acontecimentos.
Eles não substituem os documentos produzidos em 1977.
Para estudar Colares de maneira séria, é necessário colocar lado a lado:
os documentos militares;
os relatos dos moradores;
os depoimentos médicos;
as fotografias;
os relatórios do SNI;
e os testemunhos posteriores dos próprios militares.
Somente então é possível perceber onde as fontes coincidem e onde começam as divergências.
Jacques Vallée em Colares
O caso também chamou a atenção de pesquisadores estrangeiros.
O astrofísico e ufólogo francês Jacques Vallée visitou o Brasil em 1988 e entrevistou pessoas relacionadas aos acontecimentos, incluindo Wellaide Cecim.
Vallée posteriormente discutiu os episódios brasileiros em seus trabalhos sobre fenômenos anômalos.
Mas é importante corrigir uma afirmação frequentemente repetida sobre sua análise.
Não é adequado dizer que Vallée "confirmou" que as vítimas haviam sido expostas a radiação eletromagnética de alta intensidade.
Essa conclusão vai além do que as fontes sustentam.
O que existe é um conjunto de relatos médicos e testemunhais sobre sintomas e lesões cuja causa permaneceu desconhecida.
A origem física dessas lesões não foi estabelecida de maneira independente.
Portanto, afirmar que os documentos "comprovam radiação" seria transformar uma hipótese em conclusão.
E esse é exatamente o tipo de salto que uma investigação histórica deve evitar.
O Mistério dos Feixes de Luz
Os chamados raios luminosos são provavelmente a característica mais famosa do caso.
Segundo os moradores, as luzes podiam projetar feixes estreitos sobre pessoas.
Algumas vítimas relatavam paralisia ou amortecimento.
Outras mencionavam calor, dor ou queimaduras.
A documentação militar registra relatos desses efeitos.
Em um levantamento baseado nos relatórios da primeira missão, aparecem dezenas de referências a sintomas como paralisia ou amortecimento, tremores, dor de cabeça, calor, choque elétrico, queimaduras e outros efeitos.
Mas há um detalhe importante.
Os registros documentam o que as testemunhas e pacientes relataram.
Eles não identificam experimentalmente a natureza do feixe.
Não há uma medição espectral publicada demonstrando que os raios correspondiam a determinado tipo de radiação.
Não existe, nos documentos disponíveis, uma análise física que permita afirmar que uma tecnologia desconhecida estava produzindo aqueles efeitos.
O mistério permanece justamente aí.
O Que a Operação Prato Conseguiu Descobrir?
Essa talvez seja a pergunta mais interessante.
E a resposta é desconfortável.
A Operação Prato conseguiu documentar que havia uma onda de relatos.
Conseguiu registrar observações realizadas por militares.
Conseguiu entrevistar moradores.
Conseguiu registrar descrições de objetos e luzes.
Conseguiu reunir relatos de efeitos físicos.
Conseguiu produzir material fotográfico.
Conseguiu documentar a dimensão do medo existente entre a população.
Mas não conseguiu estabelecer publicamente a natureza dos fenômenos.
Não existe uma conclusão oficial da operação dizendo:
"eram extraterrestres".
Também não existe uma conclusão definitiva dizendo:
"tudo era uma fraude".
O resultado documental é muito menos cinematográfico.
É uma coleção extensa de observações, relatos, hipóteses e registros que não produziram uma identificação definitiva.
E talvez seja exatamente isso que torne o caso tão persistente.
O Arquivo Militar
A história da Operação Prato também é uma história sobre documentos.
Parte do material foi liberada oficialmente ao longo dos anos e passou a integrar o acervo público relacionado aos antigos órgãos de informação e à Aeronáutica.
Outros documentos foram divulgados anteriormente por pesquisadores e jornalistas.
O resultado é um acervo fragmentado.
Existem documentos oficiais.
Existem cópias vazadas.
Existem transcrições.
Existem fotografias.
Existem relatos posteriores.
E existem versões diferentes sobre determinados acontecimentos.
Essa fragmentação torna a pesquisa difícil.
Mas também oferece uma oportunidade.
Diferentemente de muitos casos ufológicos baseados exclusivamente em relatos de segunda mão, Colares possui uma quantidade considerável de documentação contemporânea.
Isso não significa que a documentação seja conclusiva.
Significa que existe material suficiente para uma investigação histórica real.
O Que os Documentos Não Provam
Essa talvez seja a parte mais importante de todo o caso.
Os documentos não demonstram que os objetos eram extraterrestres.
Não demonstram que existiam naves alienígenas sobre Colares.
Não demonstram que as vítimas tiveram seu sangue extraído.
Não demonstram que os feixes eram armas de energia.
Não demonstram que as lesões foram produzidas por radiação desconhecida.
Não demonstram que todas as fotografias representam objetos físicos.
E não demonstram que todos os relatos tinham a mesma causa.
Mas eles demonstram algo diferente.
Demonstram que uma quantidade significativa de pessoas relatou fenômenos luminosos.
Demonstram que a Força Aérea Brasileira considerou os relatos suficientemente importantes para enviar equipes à região.
Demonstram que militares realizaram observações.
Demonstram que houve documentação sistemática.
Demonstram que médicos foram envolvidos.
E demonstram que alguns relatos de efeitos físicos foram registrados oficialmente.
Essa já é uma história extraordinária.
O Que Poderia Explicar Colares?
Existem várias possibilidades.
A primeira é a existência de fenômenos convencionais mal identificados.
A região possui intensa atividade atmosférica, marítima e aérea, e observações noturnas podem ser difíceis de interpretar.
A segunda possibilidade envolve fenômenos astronômicos.
Planetas brilhantes, estrelas, satélites e outros objetos celestes podem produzir percepções incomuns dependendo das condições atmosféricas e do horizonte.
A terceira envolve fenômenos atmosféricos ou ópticos.
A quarta possibilidade é a existência de aeronaves ou tecnologias convencionais cuja identidade não era conhecida pelos observadores.
E existe, naturalmente, a hipótese extraordinária.
Alguns pesquisadores defendem que os acontecimentos representaram a presença de tecnologia não humana.
Mas essa hipótese não foi demonstrada pelos documentos disponíveis.
A ciência não elimina uma hipótese simplesmente porque ela parece extraordinária.
Ela exige evidência proporcional à afirmação.
E, em Colares, essa evidência definitiva ainda não apareceu.
A Grande Contradição de Colares
Talvez o aspecto mais fascinante do caso seja justamente sua contradição central.
De um lado, existe documentação militar.
Do outro, a documentação não resolve o fenômeno.
Temos observadores treinados.
Mas observações difíceis de interpretar.
Temos fotografias.
Mas fotografias ambíguas.
Temos depoimentos médicos.
Mas nenhuma identificação física da causa das lesões.
Temos relatórios.
Mas nenhum relatório conclusivo sobre a origem dos objetos.
Temos décadas de pesquisa.
Mas nenhuma resposta definitiva.
É como se a Operação Prato tivesse conseguido transformar uma lenda local em um enorme arquivo documental...
...sem conseguir transformar o arquivo em uma explicação.
O Que Aconteceu Depois?
A intensidade dos relatos diminuiu.
A operação foi encerrada no final de 1977, embora o monitoramento e registros relacionados a fenômenos aéreos tenham continuado posteriormente.
Documentos associados ao I COMAR registram observações também em 1978.
Com o passar dos anos, Colares tornou-se um dos símbolos da ufologia brasileira.
Pesquisadores voltaram à região.
Novos depoimentos foram publicados.
Documentos foram liberados.
Fotografias foram analisadas.
E antigos participantes da operação concederam entrevistas.
Cada nova revelação parecia acrescentar uma peça.
Mas também acrescentava novas perguntas.
Colares Depois da Operação
O episódio deixou marcas profundas na memória da população.
Com o passar das décadas, a história do Chupa-Chupa transformou-se também em parte da identidade cultural da região.
Colares passou a ser associada à ufologia brasileira.
O fenômeno tornou-se tema de livros, documentários, reportagens, entrevistas e pesquisas acadêmicas.
A própria existência de um turismo relacionado à ufologia demonstra como o acontecimento deixou de ser apenas uma memória local e passou a integrar a cultura da ilha.
O caso também ganhou atenção internacional com produções documentais contemporâneas sobre a onda amazônica.
Mas a popularização trouxe um problema.
Quanto mais a história era contada, mais difícil se tornou separar o que estava nos documentos de 1977 daquilo que foi acrescentado posteriormente.
A História Contra a Lenda
Colares não precisa ser transformada em uma história menor para ser tratada com rigor.
Pelo contrário.
A realidade documental já é suficientemente extraordinária.
Uma comunidade inteira entrou em estado de medo.
Autoridades municipais procuraram ajuda.
A Força Aérea Brasileira enviou agentes para investigar.
Militares observaram fenômenos.
Foram realizadas entrevistas.
Médicos foram consultados.
Fotografias foram produzidas.
Relatórios foram escritos.
O SNI acompanhou o assunto.
E décadas depois ainda existem pesquisadores tentando entender exatamente o que aconteceu.
Isso é fato histórico.
O que permanece desconhecido é a causa.
E essa diferença deve ser preservada.
O Que Realmente Sabemos
| Pergunta | Estado atual |
| Onde ocorreu o principal foco da investigação? | Colares e outras localidades do Pará |
| Quando os relatos ganharam intensidade? | Segundo semestre de 1977 |
| O que era o "Chupa-Chupa"? | Nome popular dado às luzes e aos supostos ataques relatados por moradores |
| A FAB investigou os acontecimentos? | Sim |
| Qual foi o nome da operação? | Operação Prato |
| Quando ocorreu a primeira missão? | 20 de outubro a 11 de novembro de 1977 |
| Houve uma segunda missão? | Sim, de 25 de novembro a 5 de dezembro de 1977 |
| Militares observaram fenômenos? | Sim, existem registros de observações |
| Foram entrevistados moradores? | Sim |
| Houve relatos de efeitos físicos? | Sim |
| A médica Wellaide Cecim relatou lesões em pacientes? | Sim |
| As lesões tiveram causa comprovada? | Não |
| Existem fotografias associadas à operação? | Sim |
| Todas as fotografias são consideradas conclusivas? | Não |
| A operação comprovou origem extraterrestre? | Não |
| O fenômeno recebeu uma identificação definitiva? | Não |
Conclusão: A Ilha que Continua Sem Resposta
Colares permanece como um dos capítulos mais intrigantes da história dos fenômenos aéreos não identificados no Brasil.
Não porque tenhamos uma fotografia perfeita de uma nave.
Não porque um laboratório tenha identificado uma tecnologia alienígena.
Não porque a Força Aérea Brasileira tenha declarado oficialmente que extraterrestres estavam atacando moradores.
Nada disso aconteceu.
O que aconteceu foi diferente.
Durante 1977, uma onda de relatos sobre luzes desconhecidas provocou medo em comunidades do Pará.
A situação tornou-se suficientemente séria para mobilizar a estrutura de inteligência da Aeronáutica.
Militares foram enviados ao campo.
Foram realizadas observações.
Moradores foram entrevistados.
Médicos participaram da investigação.
Fotografias foram produzidas.
Relatórios foram elaborados.
E o fenômeno não recebeu uma explicação definitiva.
Quase meio século depois, essa continua sendo a característica mais interessante do caso.
Não existe uma resposta escondida em uma fotografia perfeita.
Não existe uma conclusão simples perdida em algum relatório.
Existe um enorme conjunto de documentos que permite reconstruir parte do que aconteceu...
...mas não permite determinar, com segurança, o que eram aquelas luzes.
Talvez tenham sido fenômenos convencionais mal identificados.
Talvez diferentes acontecimentos tenham sido agrupados sob o mesmo nome.
Talvez alguns relatos tenham sido exagerados pelo medo e pela imprensa.
Talvez exista alguma parcela dos acontecimentos que ainda não possua explicação satisfatória.
E é justamente nesse espaço entre o documento e o desconhecido que Colares continua vivendo.
Fontes e Referências
• Força Aérea Brasileira / I COMAR — Registros de Observações de OVNI e documentos relacionados à Operação Prato (1977–1978)
• Serviço Nacional de Informações (SNI) — documentos sobre os relatos de OVNIs e a investigação no Pará, 1977
• Arquivo Nacional — documentação histórica relacionada aos órgãos de informação e aos registros liberados sobre OVNIs no Brasil
• Wellaide Cecim Carvalho — depoimento registrado pela equipe da Operação Prato em 1977
• Jacques Vallée — Confrontations: A Scientist's Search for Alien Contact (1990)
• A. J. Gevaerd — pesquisas e documentação sobre a Operação Prato e os casos do Pará
• Revista UFO — documentação, entrevistas e pesquisas sobre a Operação Prato
• UOL/BBC Brasil — reportagem sobre a Operação Prato e os relatos de Colares
• Universidade Federal do Pará / CAPES — pesquisas acadêmicas sobre Colares, a Operação Prato e o turismo ufológico na região
• ANPUH — estudo acadêmico sobre os depoimentos e a documentação médica relacionada à Operação Prato