Um dos casos mais controversos da ufologia brasileira
Poucos episódios da ufologia brasileira reúnem uma narrativa tão complexa quanto o caso de Onilson Pátero, comerciante de Catanduva, no interior de São Paulo.

O caso ganhou notoriedade principalmente por dois acontecimentos separados por aproximadamente um ano: o primeiro, ocorrido na noite de 21 para 22 de maio de 1973, e o segundo, em 26 de abril de 1974.
As histórias atribuídas a Pátero envolvem avistamento de um objeto luminoso, perda de consciência, suposto contato com ocupantes de uma aeronave e, no segundo episódio, um desaparecimento que teria durado vários dias.
É importante, entretanto, estabelecer desde o início uma distinção fundamental: os acontecimentos são documentados como relatos e como objeto de investigação ufológica, mas isso não significa que a origem extraterrestre tenha sido cientificamente comprovada.
O caso é relevante justamente porque permite examinar como um relato extraordinário foi investigado por pesquisadores brasileiros durante a década de 1970.
A primeira ocorrência: maio de 1973
Na noite de 21 para 22 de maio de 1973, Pátero retornava para Catanduva após uma viagem de trabalho.
Segundo os relatos reunidos posteriormente pela SBEDV, ele viajava em seu Opala azul quando encontrou um jovem pedindo carona.
O homem teria se apresentado como Alex.
Durante a viagem, os dois conversaram. Segundo o relato atribuído a Pátero, o passageiro demonstrou interesse por informações pessoais do motorista, perguntando sobre sua profissão, formação e residência.
Um detalhe posteriormente considerado particularmente estranho pelos investigadores foi o fato de Alex ter repetido corretamente o endereço de Pátero depois de ouvi-lo durante a conversa.
De acordo com a documentação reproduzida por pesquisadores, Alex inicialmente teria indicado Catanduva como destino. Posteriormente, porém, teria afirmado que precisava descer antes, em direção a Itajobi.
Depois que o passageiro deixou o veículo, a história teria tomado outro rumo.
A luz azul e o objeto sobre a estrada
Segundo o relato de Pátero, após deixar o passageiro, seu automóvel apresentou problemas e parou.
Foi então que ele teria observado uma intensa luminosidade.
Fontes que reproduzem os relatos da época descrevem a luz como azulada e associada a um objeto que Pátero teria percebido como semelhante a duas bacias ou pratos unidos.
Uma das versões preservadas pela imprensa ufológica descreve o objeto como tendo aproximadamente 8 metros de diâmetro, situado a cerca de 20 metros da testemunha.
Essas dimensões, entretanto, devem ser tratadas como estimativas pertencentes ao testemunho, e não como uma medida independente obtida por instrumentos.
Pátero teria perdido a consciência posteriormente.
A partir desse ponto, o relato entra em uma sequência de acontecimentos que foi interpretada pelos pesquisadores como um possível episódio de abdução.
O desaparecimento e o primeiro retorno
Após o episódio, Pátero teria sido encontrado na manhã seguinte em uma região rural.
A documentação reunida pela SBEDV registra a participação de diferentes pessoas na investigação, incluindo familiares, um guarda que teria encontrado Pátero e médicos que o examinaram posteriormente.
Um dos aspectos que chamou a atenção dos pesquisadores foi o estado físico apresentado por Pátero após o episódio.
Segundo a documentação reproduzida pela SBEDV, o médico Elias Assis Chediak acompanhou o caso e observou o surgimento de alterações na pele da testemunha.
Esse ponto é importante porque o texto original frequentemente encontrado na internet transforma essas alterações em uma espécie de "prova médica de contato extraterrestre".
Isso vai além do que as fontes permitem afirmar.
O que podemos dizer com segurança histórica é que médicos e pesquisadores examinaram Pátero e que alterações cutâneas foram registradas no contexto da investigação. A documentação disponível não permite transformar essas alterações, por si só, em evidência científica de exposição a uma tecnologia não humana.
Uma investigação que envolveu diferentes pesquisadores
O caso despertou rapidamente o interesse de pesquisadores brasileiros.
A Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores (SBEDV) realizou uma investigação que posteriormente foi publicada em seus boletins.
Fontes que reproduzem esse material indicam que a investigação apareceu nos boletins 94/98, correspondente ao período de setembro de 1973 a junho de 1974, e 99/103, de julho de 1974 a abril de 1975.

A investigação não ficou restrita ao testemunho de Pátero.
Foram procurados familiares, pessoas que tiveram contato com ele após o episódio e profissionais que participaram dos primeiros exames.
Entre os pesquisadores relacionados ao caso aparecem nomes como Irene Granchi, Max Berezovski e Silvio Lago, além do médico Elias Assis Chediak.
Há ainda referências posteriores à participação de investigadores ligados à Aeronáutica.
Isso é particularmente interessante porque demonstra que o caso não circulou exclusivamente dentro de grupos ufológicos: ele chegou a chamar a atenção de autoridades e pesquisadores externos ao movimento.
O segundo episódio: abril de 1974
Se o primeiro acontecimento já havia causado repercussão, o segundo episódio tornou o caso Pátero ainda mais conhecido.
Em 26 de abril de 1974, Pátero teria desaparecido novamente.
Desta vez, o episódio ocorreu nas proximidades de Guarantã, no estado de São Paulo.
Um registro jornalístico publicado pela Folha de S.Paulo em 1997, ao abordar documentos do antigo DOPS relacionados à investigação ufológica, confirma que o caso teve repercussão policial.
Segundo a reportagem, um delegado comunicou ao diretor do DOPS que a região havia sido movimentada pela notícia de que Onilson Pátero teria sido "sequestrado" por um disco voador.
A mesma reportagem afirma que o segundo episódio teria provocado um desaparecimento de seis dias.
O automóvel de Pátero teria sido localizado abandonado em uma rodovia no interior paulista, enquanto ele próprio reapareceria posteriormente em uma fazenda em Colatina, no Espírito Santo.
Esse deslocamento geográfico é uma das características mais extraordinárias atribuídas ao caso.
O caso chegou ao DOPS
Um dos aspectos historicamente mais interessantes do episódio é a existência de documentação relacionada ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).
A reportagem da Folha de S.Paulo revelou que o órgão chegou a acompanhar informações relacionadas ao caso Pátero e também demonstrou interesse nas atividades dos pesquisadores de ufologia envolvidos.
Isso não significa que o DOPS tenha confirmado a existência de uma nave extraterrestre.
O documento demonstra algo diferente e, talvez, igualmente interessante: o fenômeno OVNI era suficientemente relevante naquela época para chegar aos órgãos de segurança e inteligência brasileiros.
O contexto político da década de 1970 também não pode ser ignorado.
O Brasil vivia sob regime militar, e os órgãos de segurança acompanhavam diferentes movimentos e organizações da sociedade. A preocupação do DOPS com grupos ufológicos deve, portanto, ser analisada dentro desse contexto histórico.
O que aconteceu com Pátero?
Aqui começa uma das maiores dificuldades para quem tenta reconstruir o caso atualmente.
Grande parte das informações disponíveis na internet deriva de publicações ufológicas, reproduções de antigos boletins e relatos posteriores.
Com o passar das décadas, diferentes versões acrescentaram detalhes, reinterpretaram acontecimentos e, em alguns casos, apresentaram como fatos conclusivos aquilo que originalmente era apenas parte do testemunho.
Por isso, é necessário separar três níveis de informação:
| Elemento | O que pode ser afirmado |
| Onilson Pátero | Comerciante de Catanduva associado aos relatos |
| Primeiro episódio | Relatado como ocorrido em maio de 1973 |
| Segundo episódio | Relatado como ocorrido em abril de 1974 |
| Investigação da SBEDV | Documentada em boletins da organização |
| Exames médicos | Há referências a acompanhamento médico após o primeiro episódio |
| DOPS | Há documentação sobre o interesse do órgão no caso |
| Origem extraterrestre | Não comprovada |
| Abdução extraterrestre | Interpretação do relato, não fato estabelecido cientificamente |
| Tecnologia não humana | Não demonstrada por evidências independentes |
Essa distinção é fundamental para preservar a credibilidade histórica do caso.
O que torna o Caso Pátero importante?
Mesmo sem considerar comprovada uma origem extraterrestre, o episódio possui importância histórica dentro da ufologia brasileira.
Primeiro, porque existe uma documentação relativamente extensa produzida por pesquisadores contemporâneos aos acontecimentos.
Segundo, porque o caso envolveu diferentes tipos de testemunhas e participantes: o próprio Pátero, familiares, pessoas que o encontraram, médicos, pesquisadores e autoridades.
Terceiro, porque o episódio de 1974 ultrapassou o ambiente estritamente ufológico e chegou aos registros de órgãos de segurança, fato posteriormente documentado pela imprensa.
E, finalmente, porque o caso mostra como relatos de supostos contatos extraterrestres eram investigados no Brasil décadas antes da popularização do atual conceito de UAP.
Relato, evidência e interpretação
É justamente aqui que o Caso Pátero se torna interessante para uma análise moderna.
Existe uma diferença enorme entre dizer:
"Onilson Pátero foi abduzido por extraterrestres."
e dizer:
"Onilson Pátero relatou ter sido levado por uma entidade associada a um objeto que interpretou como uma nave."
A primeira afirmação transforma uma interpretação em fato.
A segunda preserva aquilo que efetivamente pode ser documentado: uma pessoa fez um relato extraordinário, o episódio foi investigado e deixou registros históricos.
Essa diferença não diminui o caso.
Pelo contrário.
Ela permite que o episódio seja estudado sem que a conclusão seja definida antecipadamente.
O que sabemos — e o que permanece desconhecido
A documentação disponível permite estabelecer alguns pontos com razoável segurança histórica.
Onilson Pátero existiu e estava associado a Catanduva.
Ele relatou dois episódios extraordinários, ocorridos em 1973 e 1974.
O primeiro envolveu uma carona dada a um homem chamado Alex, seguida de uma experiência envolvendo um objeto luminoso e posterior perda de consciência, segundo seu relato.
O segundo envolveu um desaparecimento de vários dias e seu reaparecimento no Espírito Santo, segundo registros posteriores.
Pesquisadores da SBEDV investigaram o caso e produziram documentação sobre ele. Médicos também tiveram contato com Pátero após o primeiro episódio.
O que não podemos estabelecer historicamente é que Pátero tenha efetivamente entrado em uma nave extraterrestre ou que os fenômenos tenham sido produzidos por tecnologia não humana.
Essa conclusão permanece no campo das hipóteses.
O legado do Caso Pátero
Mais de cinco décadas depois, o nome de Onilson Pátero continua aparecendo entre os casos clássicos da ufologia brasileira.
Seu caso atravessou diferentes períodos da pesquisa ufológica: foi investigado por pesquisadores da década de 1970, ganhou espaço em publicações especializadas, chamou a atenção de autoridades e posteriormente foi recuperado por jornais e pesquisadores interessados na história dos OVNIs no Brasil.
Hoje, sua importância talvez esteja menos em tentar declarar definitivamente o que aconteceu e mais em compreender como um dos relatos de contato mais conhecidos do Brasil foi construído, investigado e preservado ao longo das décadas.
O Caso Pátero permanece, portanto, entre duas fronteiras: de um lado, os acontecimentos e documentos que podem ser pesquisados historicamente; de outro, uma interpretação extraordinária que continua sem comprovação independente.
E talvez seja justamente essa fronteira que mantenha o caso tão fascinante.
Registros e fontes históricas
- Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores (SBEDV) — investigações publicadas nos boletins 94/98 e 99/103, contendo entrevistas e informações sobre o primeiro episódio e os envolvidos na investigação.
- Folha de S.Paulo — 11 de maio de 1997 — reportagem sobre documentos do DOPS relacionados à investigação ufológica e ao segundo episódio envolvendo Onilson Pátero.
- Revista UFO — "Memórias da Ufologia: Mistério em Catanduva" — publicação que recupera o caso e informa que a investigação de Irene Granchi havia sido publicada no The APRO Bulletin em julho de 1973.
- Fenomenum — Caso Onilson Pátero — reprodução de materiais atribuídos à SBEDV e descrição das etapas da investigação. Deve ser consultada como fonte secundária de reprodução documental.