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Caso Histórico

Fragmentos de Ubatuba: O Enigma do Magnésio Brasileiro ⏱ 11 min

Em setembro de 1957, o colunista Ibrahim Sued, do jornal O Globo, publicou uma carta que descrevia um episódio extraordinário no litoral de Ubatuba, em São Paulo. O autor dizia ter visto, com amigos, um disco voador explodir sobre o mar e espalhar milhares de fragmentos brilhantes. Junto com a carta vinham alguns pedaços de metal.

Esses pedaços seriam analisados por laboratórios no Brasil e nos Estados Unidos ao longo de mais de sessenta anos, e transformaram os Fragmentos de Ubatuba num dos casos mais conhecidos de suposta evidência física na história da ufologia. Mas dizer que um metal tem características incomuns é muito diferente de afirmar que ele veio de outro planeta, e as análises permitem separar bem as duas coisas.

O relato de 1957

A carta chegou à redação de O Globo e foi publicada na coluna de Ibrahim Sued em 14 de setembro de 1957. O remetente, que não se identificava com clareza, contava que estava pescando com amigos perto de Ubatuba quando viu um objeto em forma de disco se aproximar da praia em alta velocidade. O objeto teria descido em direção ao mar, feito uma curva brusca para cima e explodido no ar, soltando milhares de fragmentos incandescentes. Muitos caíram na água, mas alguns foram parar em águas rasas, perto da praia, e puderam ser recolhidos.

O médico Olavo Fontes, pioneiro da ufologia no Brasil e representante da organização americana APRO, foi atrás do material e conseguiu reunir três fragmentos para análise.

A carta e sua publicação estão bem documentadas. O resto não. O autor nunca foi identificado, as outras testemunhas também não, e a explosão não aparece em nenhum outro registro conhecido. É importante ter isso em mente antes de olhar para os laboratórios.

Os primeiros exames

Ainda em 1957, um dos fragmentos foi examinado no Laboratório da Produção Mineral, do Ministério da Agricultura, pela química Luisa Maria A. Barbosa. A análise espectrográfica identificou magnésio de altíssima pureza e não encontrou nem mesmo os elementos-traço que costumam aparecer nesse tipo de material. Daí nasceu a fama de que Ubatuba tinha produzido "magnésio 100% puro".

Essa conclusão precisa ser lida com cuidado. Quando um equipamento não detecta um elemento, isso não quer dizer que ele não esteja lá, apenas que está abaixo do limite que o aparelho consegue medir. Os instrumentos de 1957 eram muito menos sensíveis que os de hoje.

Oak Ridge, 1958

Em 1958, outra amostra foi analisada no Laboratório Nacional de Oak Ridge, nos Estados Unidos, por espectroscopia de arco. O resultado foi cerca de 99,8% de magnésio, com traços de ferro, silício e alumínio na faixa de 100 a 1.000 partes por milhão, além de cálcio e cobre em quantidades menores. Os técnicos também notaram fissuras na estrutura cristalina do metal que indicavam oxidação em alta temperatura.

Ou seja, o material não era magnésio absolutamente livre de impurezas. Ainda assim, era um metal muito puro, e isso justificou novas investigações.

O Relatório Condon e o mistério do estrôncio

Em 1968, uma amostra foi entregue ao projeto da Universidade do Colorado que resultaria no Relatório Condon. Ela foi analisada por ativação de nêutrons num laboratório do Departamento do Tesouro americano, e o resultado foi comparado com amostras de magnésio da Dow Chemical, uma das maiores fabricantes do metal na época.

A conclusão do relatório derrubou o principal argumento do caso: o fragmento não era mais puro que o magnésio que a indústria já produzia antes de 1957. A pureza, sozinha, não provava nada.

Mas essa mesma análise revelou um detalhe que nunca foi bem explicado. O fragmento tinha cerca de 500 partes por milhão de estrôncio e 160 de bário. Segundo especialistas consultados ao longo dos anos, inclusive da própria Dow Chemical e dos laboratórios Battelle, o estrôncio não era adicionado ao magnésio comercial naquela época. É esse estrôncio, e não a pureza, que mantém o caso vivo até hoje.

Os estudos de Peter Sturrock

Nos anos 1980, o que restava das amostras guardadas pela APRO chegou às mãos de Peter Sturrock, astrofísico da Universidade Stanford. Em 1997, ele encomendou novas análises, incluindo espectrometria de massa de íons secundários (SIMS) e ICP-MS por ablação a laser, e publicou os resultados em 2001 no Journal of Scientific Exploration.

Sturrock encontrou diferenças entre os espécimes. As superfícies tinham composições distintas, e algumas impurezas, como titânio, cromo, ferro, cobalto, estrôncio, ítrio, nióbio, paládio e bário, não eram fáceis de explicar só por contato com água do mar ou areia. Um dos espécimes era o que mais se afastava da composição normal. Mas ele mesmo concluiu que essa diferença podia ser produzida a partir de magnésio comum, por meio de sublimações sucessivas, e que, portanto, não apontava para uma origem fora da Terra. As análises de isótopos feitas naquela fase também indicaram origem terrestre.

"Compatível com uma origem tecnológica" não significa "vindo de uma nave extraterrestre".

A busca pelas testemunhas

Em 2004, Sturrock voltou ao caso ao lado do astrofísico brasileiro Pierre Kaufmann, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Os dois foram a Ubatuba procurar sinais do evento de 1957 e publicaram o que encontraram no mesmo Journal of Scientific Exploration.

O resultado complica a história. Jornalistas que tentaram localizar testemunhas da explosão de 1957 não conseguiram. Os pesquisadores encontraram provas indiscutíveis de que um avião tinha caído na região em abril de 1957. Encontraram também fortes indícios de que um meteorito explodiu ou caiu ali no começo dos anos 1930, com relatos de material leve recolhido em redes de pesca. Sobre a explosão de 1957, a evidência era mais fraca, baseada principalmente no depoimento de uma única testemunha. E souberam ainda de amostras de metal que teriam sido analisadas num centro de pesquisa da Aeronáutica perto de São Paulo e identificadas como magnésio.

Ou seja, a região teve mais de um evento capaz de gerar histórias de "coisas caindo do céu", e não é possível garantir que os fragmentos venham do episódio descrito na carta.

O estudo de 2022

A análise mais recente foi publicada em 2022 no Journal of Scientific Exploration por Robert M. Powell, Michael D. Swords, Mark Rodeghier e Phyllis Budinger. Eles revisaram todo o histórico de exames e testaram uma amostra em dois laboratórios diferentes, entre 2017 e 2018, usando espectrometria de massa com plasma indutivamente acoplado (ICP-MS), para medir os isótopos do magnésio e de elementos-traço como estrôncio, bário, cobre e zinco.

A ideia era simples. O magnésio natural tem três isótopos estáveis, o magnésio-24, o 25 e o 26, sempre em proporções muito parecidas em qualquer lugar da Terra. Se o fragmento tivesse proporções muito diferentes, seria um indício bem mais forte do que a simples pureza.

O resultado:

Os isótopos do magnésio estavam dentro dos valores terrestres. Um dos laboratórios chegou a obter números fora do padrão, mas os autores atribuíram a diferença a erro de medição, já que o outro laboratório encontrou valores normais.
Os isótopos dos elementos-traço deram resultados inconclusivos, por causa das inconsistências entre os dois laboratórios.

Os autores confirmaram que o fragmento é magnésio extremamente puro, com uma impureza de estrôncio incomum para o magnésio fabricado na época. Recomendaram novas análises, separando quimicamente os elementos-traço do magnésio antes de medi-los, em laboratórios universitários com equipamentos mais precisos.

O que as análises realmente mostram

Depois de mais de seis décadas, dá para separar o que se sabe com segurança do que continua em aberto:

O material é magnésio, confirmado por todas as análises.
É um magnésio muito puro, por volta de 99,8% a 99,9%, mas não mais puro do que a indústria já conseguia produzir em 1957, segundo o Relatório Condon.
Tem uma impureza de estrôncio que não era comum no magnésio comercial da época e que nunca foi totalmente explicada.
Os isótopos do magnésio são terrestres, segundo as análises de 1997 e de 2022.
A origem dos fragmentos é incerta. A carta não tem autor identificado, as testemunhas nunca foram encontradas, e a região teve outros eventos que podem ter originado histórias parecidas.
A origem extraterrestre não foi demonstrada por nenhuma das análises.
O problema da cadeia de custódia

Há ainda uma dificuldade histórica importante. As amostras de Ubatuba passaram de mão em mão: do jornal para Olavo Fontes, de Fontes para Coral Lorenzen, da APRO, e depois para Peter Sturrock, até chegar aos pesquisadores atuais. Ao longo do caminho, foram cortadas, divididas e consumidas em vários testes, a ponto de restar hoje muito pouco material.

Isso faz com que a procedência de cada pedaço precise ser avaliada individualmente. Para uma investigação definitiva, o ideal seria ter uma amostra com a cadeia de custódia documentada desde a coleta até o laboratório, coisa que, no caso de Ubatuba, já não é possível reconstituir por completo.

O que ainda não tem resposta

Mesmo deixando de lado o que não se sustenta, Ubatuba continua sendo um caso interessante. Ainda não se sabe exatamente de onde vieram os fragmentos, se a explosão descrita na carta aconteceu de verdade, se todos os pedaços pertencem ao mesmo evento e, principalmente, como explicar o estrôncio por processos industriais conhecidos.

São perguntas que podem ser respondidas em laboratório, e esse talvez seja o maior valor do caso. Em vez de depender só da memória de testemunhas, os pesquisadores tinham nas mãos um objeto físico que podia ser pesado, fotografado e analisado.

O veredito: mistério não é sinônimo de prova

O Caso Ubatuba é um dos episódios mais discutidos da ufologia brasileira, mas sua história real é mais complicada do que a versão do "magnésio impossível". Os fragmentos atribuídos ao episódio existem, foram analisados várias vezes e mostram um metal muito puro, com uma impureza curiosa. Mas a pureza não era impossível para a época, os isótopos são terrestres e a origem do material continua presa a uma carta sem autor conhecido.

Fontes e referências
Powell, Robert M.; Swords, Michael D.; Rodeghier, Mark; Budinger, Phyllis. "Isotope Ratios and Chemical Analysis of the 1957 Brazilian Ubatuba Fragment." Journal of Scientific Exploration, vol. 36, nº 1, 2022, p. 39–48. DOI: 10.31275/20222413.
Sturrock, Peter A. "Composition Analysis of the Brazil Magnesium." Journal of Scientific Exploration, vol. 15, nº 1, 2001, p. 69–95.
Kaufmann, Pierre; Sturrock, Peter A. "On Events Possibly Related to the 'Brazil Magnesium'." Journal of Scientific Exploration, vol. 18, nº 2, 2004, p. 283–291.
Condon, Edward U. (dir.) Scientific Study of Unidentified Flying Objects (Relatório Condon), 1969.
O Globo — coluna de Ibrahim Sued, 14 de setembro de 1957.
Correio da Manhã / Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Registro histórico sobre o episódio e as primeiras análises dos fragmentos.
Center for UFO Studies (CUFOS). Documentação histórica e bibliográfica sobre o material de Ubatuba e suas análises.

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Nota Editorial

Este artigo é baseado em relatos documentados, investigações oficiais, depoimentos de testemunhas e fontes acadêmicas e jornalísticas verificáveis, listadas ao final do texto.

O Casos Ufológicos não afirma nem nega a existência de vida extraterrestre ou de tecnologia de origem não humana. Nossa missão é apresentar o que está documentado e deixar que você forme sua própria conclusão.

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