Os Flashes de Luz da Apollo 17: O Fenômeno Misterioso que os Astronautas Viram com os Olhos Fechados
A missão Apollo 17, realizada em dezembro de 1972, entrou para a história como a última missão tripulada do programa Apollo à superfície lunar. Mas, além das descobertas geológicas realizadas em Taurus-Littrow, a missão também participou de uma investigação peculiar: os chamados “light flashes”, clarões luminosos percebidos pelos astronautas mesmo quando seus olhos estavam fechados.
O fenômeno não era novidade. Astronautas de missões Apollo anteriores já haviam relatado pontos, riscos e flashes luminosos durante os trajetos entre a Terra e a Lua. A Apollo 17, entretanto, levou adiante uma tentativa mais sistemática de relacionar essas percepções à passagem de partículas de alta energia pelo corpo humano.
E aqui está o detalhe que torna o episódio particularmente interessante: não era necessário haver uma fonte de luz dentro da espaçonave para que os astronautas enxergassem os clarões.
A própria radiação cósmica poderia estar produzindo a sensação luminosa dentro do olho.

Um fenômeno observado antes da Apollo 17
Os primeiros relatos sistemáticos de flashes luminosos surgiram durante as missões Apollo que viajaram para além da proteção oferecida pelo ambiente próximo à Terra.
Os astronautas descreviam diferentes formas de percepção: pontos brilhantes, riscos, faíscas e pequenas nuvens luminosas.
O fenômeno podia ocorrer quando a cabine estava escura e, em determinadas circunstâncias, mesmo com os olhos fechados.
O material oficial da NASA registra que astronautas das missões Apollo haviam observado esses flashes desde a Apollo 11. O fenômeno despertou interesse médico e científico porque poderia estar relacionado à exposição dos astronautas à radiação cósmica.
Isso criou uma pergunta extremamente simples:
O que exatamente os astronautas estavam vendo?
A Apollo 17 e a investigação científica
Quando a Apollo 17 deixou a Terra em dezembro de 1972, a NASA já tinha uma hipótese importante: partículas de alta energia provenientes dos raios cósmicos poderiam atravessar a cabeça e os olhos dos astronautas e produzir estímulos visuais.
Mas uma hipótese não era suficiente.
Era necessário tentar estabelecer uma relação entre aquilo que o astronauta dizia estar vendo e aquilo que efetivamente estava atravessando seu corpo.

Foi nesse contexto que entrou em cena o ALFMED — Apollo Light Flash Moving Emulsion Detector.
O equipamento utilizava placas de emulsão nuclear capazes de registrar trajetórias de partículas de alta energia. O objetivo era obter um registro físico das partículas que atravessassem a região da cabeça e dos olhos do astronauta e posteriormente comparar esses registros com os momentos em que os flashes eram percebidos.
Como funcionava o ALFMED?
O ALFMED pode parecer um equipamento bastante estranho para os padrões atuais.
Era essencialmente um dispositivo semelhante a um capacete, equipado com material sensível à passagem de partículas.
Durante o experimento, um dos astronautas utilizava o detector enquanto outros membros da tripulação funcionavam como observadores e controles.
A ideia era relativamente engenhosa:
- O astronauta observava o ambiente escuro ou utilizava uma proteção ocular.
- Quando percebia um flash, registrava o evento.
- O detector registrava partículas que atravessassem a região da cabeça.
- Após o retorno à Terra, as emulsões eram analisadas.
- Os pesquisadores procuravam uma possível correspondência entre os flashes relatados e as trajetórias das partículas.
Era, portanto, uma tentativa de transformar uma experiência subjetiva — “eu vi uma luz” — em um evento que pudesse ser comparado com uma evidência física.
O que aconteceu durante a Apollo 17?
O relatório oficial da missão fornece números bastante interessantes.
Durante uma sessão de aproximadamente 64 minutos durante a viagem em direção à Lua, o piloto do módulo de comando, Ronald Evans, utilizou o detector ALFMED. Eugene Cernan e Harrison Schmitt também participaram da observação, com um deles utilizando proteção ocular.
Ao todo, foram registrados 28 eventos de flashes relatados pelos dois astronautas durante esse período.
O número foi menor que os 70 eventos observados em uma sessão comparável da Apollo 16.
O relatório também informa que as placas de controle do ALFMED foram processadas posteriormente e apresentaram um baixo nível de fundo de traços de prótons.
Outro detalhe importante é que o fenômeno não se comportou exatamente da mesma maneira durante todas as fases da missão.
Durante uma sessão de aproximadamente 55 minutos na viagem de retorno à Terra, nenhum flash foi relatado. Entretanto, posteriormente, durante um período de sono, Ronald Evans e Harrison Schmitt relataram ter experimentado flashes.
Isso é importante porque mostra que o fenômeno não pode ser resumido simplesmente como “os astronautas viram flashes enquanto estavam em Taurus-Littrow”.
Na realidade, os registros mais importantes do experimento ocorreram durante o trânsito espacial entre a Terra e a Lua, enquanto os astronautas estavam submetidos à exposição à radiação cósmica.
E Taurus-Littrow?
Taurus-Littrow continua sendo fundamental para a história da Apollo 17, mas é necessário separar dois acontecimentos.
A região foi o local da exploração lunar realizada por Eugene Cernan e Harrison Schmitt, enquanto Ronald Evans permaneceu em órbita lunar no módulo de comando.
O fenômeno dos flashes luminosos, entretanto, não foi um fenômeno exclusivo da superfície lunar.
Os registros científicos da NASA mostram que os flashes eram observados durante diferentes fases das missões Apollo, incluindo viagens translunares, viagens de retorno e órbita lunar.
Portanto, chamar o fenômeno de “flashes de Taurus-Littrow” é uma maneira narrativa interessante de associá-lo à última missão lunar, mas não corresponde exatamente à forma como o experimento foi conduzido.
A explicação dos raios cósmicos
A explicação mais aceita envolve partículas extremamente energéticas provenientes do espaço.
Os raios cósmicos são partículas que chegam continuamente ao Sistema Solar vindas de diferentes fontes astrofísicas. Algumas possuem energias extremamente elevadas.
Na Terra, a atmosfera e o campo magnético ajudam a proteger os seres humanos de uma parcela significativa dessa radiação.
No espaço profundo, porém, a situação é diferente.
Os astronautas das missões Apollo estavam muito mais expostos a partículas energéticas capazes de atravessar a estrutura da espaçonave e atingir seus corpos.
E, em determinadas condições, algumas dessas partículas podiam atravessar o próprio olho.
Mas como uma partícula produz uma luz?
Essa é a parte mais fascinante do fenômeno.
Uma das explicações estudadas envolve a radiação Cherenkov.
Quando uma partícula carregada atravessa um meio com velocidade superior à velocidade da luz naquele meio — lembrando que isso não significa ultrapassar a velocidade da luz no vácuo — pode produzir uma emissão eletromagnética conhecida como radiação Cherenkov.
Pesquisadores propuseram que partículas cósmicas de alta energia atravessando o olho poderiam produzir luz dentro do próprio globo ocular, gerando a percepção de um flash.
Um estudo publicado na revista Nature em 1970 já havia proposto que a radiação cósmica poderia ser responsável pelos flashes observados pelos astronautas e que a radiação Cherenkov poderia ser um dos mecanismos envolvidos.
Posteriormente, experimentos e estudos continuaram investigando outras possibilidades.
A radiação Cherenkov era a única explicação?
Não.
E essa é uma correção importante em relação a algumas versões populares da história.
Durante décadas, pesquisadores discutiram diferentes mecanismos capazes de explicar os flashes.
Entre eles estavam:
Radiação Cherenkov: partículas relativísticas atravessando o olho poderiam produzir luz dentro do próprio globo ocular.
Estimulação direta da retina: partículas de alta energia poderiam ionizar ou estimular diretamente células e estruturas relacionadas à visão.
Outros processos de interação da radiação com os tecidos oculares: diferentes estudos laboratoriais consideraram mecanismos adicionais.
Um artigo publicado em Nature em 1971, por exemplo, discutiu a possibilidade de os flashes estarem relacionados a efeitos produzidos no cristalino pela passagem de partículas cósmicas carregadas.
Portanto, afirmar simplesmente que “a NASA descobriu que era o efeito Cherenkov” simplifica demais a história científica.
A conclusão mais segura é que a exposição a partículas cósmicas está fortemente relacionada ao fenômeno, enquanto o mecanismo físico exato de cada flash foi objeto de investigação.
O experimento encontrou uma correlação?
Sim — e esse é um dos aspectos mais interessantes da investigação.
Estudos posteriores do experimento ALFMED procuraram correlacionar os relatos dos astronautas com as trajetórias de partículas registradas nas emulsões.

Um trabalho apresentado posteriormente relatou duas correlações definidas entre núcleos de raios cósmicos com número atômico superior a 8 atravessando um olho e relatos de sensações visuais durante a Apollo 17, embora apenas uma parte da área total das placas tivesse sido analisada naquele estágio.
A literatura científica posterior também encontrou evidências de associação entre flashes e partículas carregadas atravessando a retina.
Um estudo publicado na Science em 1974 analisou os flashes observados entre as missões Apollo 11 e Apollo 17 e concluiu que eles eram tentativamente atribuídos a núcleos de raios cósmicos penetrando a cabeça e os olhos dos astronautas.
O detalhe que enganou muita gente
Existe uma característica do fenômeno que parece saída de um filme de ficção científica:
os astronautas podiam fechar os olhos e continuar vendo os flashes.
Isso não significa que a luz estivesse entrando pela janela da espaçonave.
A percepção ocorria no sistema visual.
É semelhante, em conceito geral, a outros fenômenos conhecidos como fosfenos, nos quais uma pessoa percebe uma sensação luminosa sem que necessariamente exista uma fonte de luz externa correspondente.
No caso dos astronautas, entretanto, a hipótese envolvendo partículas energéticas tornava o fenômeno particularmente relevante para a medicina espacial.
Uma preocupação médica real
A NASA não investigou os flashes simplesmente por curiosidade.
Havia uma questão muito mais importante por trás do experimento:
qual era o efeito da radiação espacial sobre o organismo humano?
Se partículas energéticas estavam atravessando a cabeça e os olhos dos astronautas, era necessário compreender melhor a exposição.
Os estudos da época reconheciam que radiações ionizantes podiam produzir fosfenos, mas também buscavam determinar se os flashes poderiam servir como indicador da exposição a partículas energéticas.
Até onde os dados da Apollo indicaram, os astronautas que experimentaram os flashes não apresentaram danos oculares ou cerebrais associados ao fenômeno.
Isso não significa que a radiação espacial seja inofensiva. Significa apenas que os flashes observados durante as missões Apollo não foram, por si mesmos, evidência de lesão.
O que os astronautas realmente viram?
Os relatos variavam.
Os flashes foram descritos como:
- pontos ou estrelas;
- pequenos riscos luminosos;
- faíscas;
- manchas ou nuvens de luz.
Uma análise dos relatos das missões Apollo encontrou diferentes formas de percepção, com predominância de pontos e riscos luminosos.
E existe uma característica curiosa: o fenômeno não dependia necessariamente de uma única condição visual.
Os relatos indicavam que os flashes podiam ser percebidos com os olhos abertos ou fechados, particularmente em ambientes escuros.
O mistério virou experimento
Esse talvez seja o verdadeiro legado dos flashes da Apollo.
No início, os astronautas simplesmente disseram:
“Estamos vendo luzes.”
A NASA poderia ter tratado aquilo como uma curiosidade subjetiva.
Em vez disso, transformou a experiência em uma investigação experimental.
O ALFMED foi desenvolvido justamente para registrar as partículas responsáveis pela exposição e permitir uma comparação com os relatos humanos. O equipamento foi empregado nas missões Apollo 16 e 17, dentro de um programa mais amplo de investigação dos flashes luminosos.
Esse processo é um excelente exemplo de como a ciência espacial funciona.
Uma observação inesperada gera uma hipótese.
A hipótese gera um instrumento.
O instrumento produz dados.
E os dados permitem restringir as explicações possíveis.
Então havia realmente algo “misterioso” na Apollo 17?
Sim — mas não necessariamente no sentido ufológico.
O mistério original era genuíno.
Os astronautas estavam percebendo luzes que não vinham de uma fonte externa convencional. Na época, os cientistas ainda estavam investigando exatamente como a radiação cósmica poderia produzir essas sensações.
Mas a existência do fenômeno não constitui evidência de UAPs, visitantes extraterrestres ou objetos próximos à espaçonave.
Os registros oficiais da NASA tratam os flashes como um fenômeno fisiológico relacionado à exposição à radiação e não como avistamentos de objetos externos.
Essa distinção é fundamental.
Por que o fenômeno continua fascinante?
Porque ele revela algo muito mais estranho do que simplesmente “uma luz no espaço”.
Ele demonstra que, fora da proteção da Terra, o próprio ambiente espacial pode interferir diretamente na percepção humana.
Os astronautas não estavam apenas olhando para o Universo.
O Universo estava, literalmente, atravessando seus olhos.
Partículas provenientes do espaço profundo podiam atravessar a espaçonave, atingir seus corpos e produzir uma sensação visual que o cérebro interpretava como luz.
É uma situação quase poética: durante uma das maiores aventuras científicas da humanidade, os astronautas podiam perceber o espaço profundo não apenas através das janelas da espaçonave, mas através das partículas que atravessavam seus próprios corpos.
O que ficou comprovado?
A documentação histórica permite separar o fato da interpretação.
| Questão | O que os registros mostram |
| Os astronautas realmente viram flashes? | Sim. O fenômeno foi relatado em várias missões Apollo. |
| Eles podiam aparecer com os olhos fechados? | Sim. Esse aspecto foi documentado. |
| A Apollo 17 investigou o fenômeno? | Sim. Utilizou o experimento ALFMED. |
| Foram registradas partículas nas placas do detector? | Sim. As emulsões registraram trajetórias de partículas. |
| Houve correlações entre partículas e flashes? | Sim, foram encontradas correlações em análises do ALFMED. |
| A causa envolve raios cósmicos? | As evidências apontam fortemente nessa direção. |
| O efeito Cherenkov explica necessariamente todos os flashes? | Não de forma definitiva. Outros mecanismos foram estudados. |
| Os flashes eram UAPs? | Não há evidência disso nos registros da Apollo 17. |
| O fenômeno representava uma mensagem ou objeto externo? | Não há evidência científica ou documental para essa interpretação. |
Apollo 17: quando o desconhecido encontrou a ciência
A Apollo 17 terminou em dezembro de 1972, encerrando a era das missões Apollo à superfície lunar.
Cernan e Schmitt caminharam por Taurus-Littrow. Evans permaneceu em órbita lunar. Amostras geológicas foram coletadas, experimentos científicos foram realizados e centenas de fotografias foram produzidas.
Mas, durante a viagem, os astronautas também experimentaram algo que inicialmente parecia inexplicável:
luzes que surgiam mesmo quando não havia luz para ser vista.
A investigação transformou esse aparente mistério em um dos exemplos mais interessantes da interação entre o organismo humano e o ambiente espacial.
Os flashes não eram visitantes.
Não eram sinais extraterrestres.
Não eram necessariamente objetos luminosos.
Eram, ao que tudo indica, manifestações da própria física das partículas atuando sobre o sistema visual humano.
E talvez seja justamente isso que torna o fenômeno tão extraordinário.
Porque, em determinado momento da história, a humanidade descobriu que via o Universo não apenas com os olhos — mas também através dele.
Fontes e registros históricos
- NASA — Apollo 17 Mission Report: o relatório oficial descreve o experimento Visual Light Flash Phenomenon, as sessões de observação e os resultados obtidos com o ALFMED.
- NASA Technical Reports Server — Visual Light Flash Phenomenon: documentação científica sobre os flashes observados nas missões Apollo 14, 15, 16 e 17 e a investigação da passagem de raios cósmicos pela cabeça e pelos olhos.
- NASA — Biomedical Results of Apollo: compilação dos resultados biomédicos das missões Apollo, incluindo a investigação dos flashes e sua possível relação com radiação cósmica.
- Science — Light Flashes Observed by Astronauts on Apollo 11 through Apollo 17: estudo publicado em 1974 analisando os relatos das últimas sete missões Apollo.
- Nature — Generation of Cherenkov Light Flashes by Cosmic Radiation within the Eyes of the Apollo Astronauts: estudo publicado em 1970 investigando a possibilidade de radiação Cherenkov produzir os flashes observados pelos astronautas.
- NASA — Apollo Light Flash Investigations: documentação sobre o desenvolvimento e utilização do ALFMED nas missões Apollo 15, 16 e 17.