Uma Fortaleza no Litoral Paulista
No alto do Morro de Itaipu, a 92 metros acima do mar, no ponto onde hoje fica o bairro do Canto do Forte, em Praia Grande, o Exército mantém uma das fortificações mais conhecidas do litoral de São Paulo. A Fortaleza de Itaipu começou a ser construída em 1902 para proteger a entrada do Porto de Santos e reúne três fortes: Jurubatuba, Duque de Caxias e Rego Barros. Na década de 1950, abrigava uma unidade de artilharia de costa. Em 1959, foi lá que um recruta chamado Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, cumpriu o serviço militar, um ano depois de ganhar sua primeira Copa do Mundo.
Na época, Praia Grande ainda não era município, e a região pertencia a São Vicente. É por isso que algumas reportagens antigas situam a fortaleza em São Vicente.
Foi nesse lugar que, segundo um dos relatos mais famosos da ufologia brasileira, dois soldados teriam sido queimados por um objeto luminoso numa madrugada de novembro de 1957.
A História Que Se Tornou Clássica
A versão mais conhecida do caso é mais ou menos esta.
Por volta das duas da madrugada de 4 de novembro de 1957, duas sentinelas estavam de guarda na fortaleza quando viram uma luz alaranjada no céu. A princípio acharam que era uma estrela, mas a luz começou a descer em direção ao forte. Era um objeto circular, que parou a uns 50 metros de altura, sobre uma das baterias de canhões, iluminando tudo em volta com um brilho laranja.
Os soldados, armados, não reagiram. Ouviram um zumbido forte, parecido com o de um gerador, e logo sentiram uma onda de calor intenso, sem chama nem raio visível. As fardas pegaram fogo. Um deles desmaiou; o outro conseguiu se abrigar, gritando. Ao mesmo tempo, toda a energia elétrica da fortaleza teria caído, e os relógios elétricos teriam parado às 2h03. Acordada pelos gritos, a guarnição correu para os postos, e alguns soldados disseram ter visto o objeto se afastar no céu.
Ainda segundo essa versão, os dois sentinelas tinham queimaduras de primeiro e segundo graus em mais de 10% do corpo, principalmente nas áreas cobertas pela roupa, e foram levados ao Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro. O caso teria sido tratado como segredo militar, e oficiais americanos teriam ido ao forte participar da investigação.
É uma história impressionante. O problema é saber quanto dela realmente aconteceu.
De Onde Veio o Relato
Quase tudo o que se sabe sobre as queimaduras vem de uma única fonte: o médico carioca Olavo Teixeira Fontes, um dos pioneiros da ufologia no Brasil e representante no país da APRO, organização civil americana de pesquisa de OVNIs dirigida por Jim e Coral Lorenzen. Fontes dizia ter recebido as informações de oficiais do Exército que pediram para não ser identificados.
O relato completo ganhou o mundo em setembro de 1959, num artigo de Fontes publicado no boletim da APRO com o título "Shadows of the Unknown: Friends or Foes". A partir daí, passou a ser repetido em livros e revistas de ufologia de vários países, quase sempre sem acréscimo de novas fontes.
Fontes era uma figura respeitada. Foi ele quem, em fevereiro de 1958, examinou o agricultor mineiro Antônio Villas Boas, protagonista de um dos casos de abdução mais famosos do mundo. Mas a dependência de uma única fonte, com testemunhas anônimas, é o ponto fraco do caso de Itaipu desde o início.
O Que Saiu na Imprensa da Época
Quando se volta aos jornais e revistas de 1957 e 1958, a história aparece bem mais modesta.
A primeira menção conhecida está na revista O Cruzeiro de 22 de fevereiro de 1958. A nota fala de um "objeto aéreo não identificado" que teria evoluído sobre o Forte de Itaipu por mais de cinco minutos, na madrugada de 2 de novembro de 1957, observado por oficiais. Não há menção a soldados queimados.
No fim de 1958, a revista Mundo Ilustrado publicou uma série de quatro reportagens de Robert E. Sullivan sobre a onda de avistamentos no Brasil depois do lançamento do satélite soviético Sputnik 2, em 3 de novembro de 1957, citando várias instalações militares que teriam recebido visitas de objetos desconhecidos. A data do caso de Itaipu aparece ali como 5 ou 6 de novembro.
Ou seja, a própria data varia de fonte para fonte: 2, 3, 4, 5 ou 6 de novembro. A data de 4 de novembro é a que acabou se consolidando na literatura ufológica.
O contexto ajuda a entender o clima. Novembro de 1957 foi um mês agitado no mundo inteiro. O Sputnik 2, com a cadela Laika a bordo, tinha acabado de ser lançado, e nos Estados Unidos a cidade de Levelland, no Texas, viveu na noite de 2 para 3 de novembro uma série de relatos de motoristas que viram luzes e tiveram os motores dos carros desligados. Notícias de objetos estranhos no céu estavam em toda parte.
A Investigação de Edison Boaventura Jr.
O estudo mais completo sobre o caso foi feito pelo pesquisador Edison Boaventura Jr., do Grupo Ufológico do Guarujá (GUG), e divulgado em 2008. Ele passou anos tentando confirmar cada detalhe da versão clássica, e o resultado é revelador.
Edison mandou cerca de 174 cartas para militares que serviram na região e não conseguiu descobrir o nome de nenhum dos dois sentinelas. Procurou registros históricos da companhia de energia e jornais da época e não encontrou sinal do apagão. O "fuzil com a ponta retorcida", que algumas versões dizem estar guardado num museu do Exército, também não foi localizado.
Ele conseguiu identificar o comandante da unidade na época: Adston Pompeu Piza, que comandou o 5º Grupo de Artilharia de Costa entre março de 1957 e março de 1960. O filho do comandante contou que o pai tinha visto uma luz descer sobre a bateria de canhões, mas disse nunca ter ouvido falar de soldados queimados.
Edison também localizou, por meio da lei de acesso à informação dos Estados Unidos, um documento em inglês atribuído à Embaixada do Brasil, que costuma ser citado como prova do envolvimento americano. O texto repete as informações já publicadas, mas não tem nomes nem assinatura. Um pesquisador veterano, que pediu anonimato, chegou a afirmar a Edison que Fontes teria inventado a história das queimaduras e forjado esse documento.
A conclusão de Edison foi que o caso é "somente parcialmente autêntico". Para ele, é provável que oficiais tenham mesmo visto uma luz sobre a fortaleza em novembro de 1957, como registrou O Cruzeiro. Já os soldados queimados, o apagão e a investigação secreta seriam acréscimos sem comprovação, que foram crescendo à medida que a história era recontada.
O Que Diz o Exército
O Exército nunca confirmou oficialmente o episódio. Em 2008, consultado durante a pesquisa de Edison, um oficial da área de comunicação respondeu que não havia nenhuma declaração autorizada sobre o caso. O coronel da reserva Erasmo Dias, que tinha sido secretário de Segurança Pública de São Paulo, foi mais direto: disse que a história era "um absurdo" e devia ser "uma lenda".
A ausência de confirmação não prova que nada aconteceu. Mas, depois de mais de seis décadas, nenhum documento militar brasileiro, nenhum prontuário médico e nenhum dos supostos sentinelas apareceu para sustentar a parte mais dramática do relato.
Por Que o Caso Continua Famoso
Mesmo com tantas dúvidas, o Caso do Forte de Itaipu continua aparecendo em listas dos casos mais importantes do Brasil e do mundo. Há bons motivos para isso: ele junta uma instalação militar, testemunhas fardadas, ferimentos físicos e um suposto segredo de Estado, tudo isso no auge da corrida espacial.
Mas ele também mostra como uma história pode crescer com o tempo. Uma luz vista por oficiais sobre uma fortaleza, registrada numa nota de revista, vira dois anos depois um ataque com soldados em chamas, apagão, hospital e investigadores estrangeiros. Separar a parte que tem registro da parte que só existe no relato é o primeiro passo para entender o caso.
O Que Realmente Sabemos
| Pergunta | Estado atual |
| Onde fica a Fortaleza de Itaipu? | No Morro de Itaipu, em Praia Grande (SP); na época, área de São Vicente |
| Quando teria ocorrido o caso? | Em novembro de 1957; a data mais citada é 4 de novembro, mas as fontes variam de 2 a 6 |
| Houve registro na imprensa da época? | Sim, O Cruzeiro (fevereiro de 1958) citou um objeto visto por oficiais sobre o forte |
| A imprensa da época falou em soldados queimados? | Não na primeira menção conhecida |
| Quem divulgou a versão das queimaduras? | O médico Olavo Fontes, no boletim da APRO (setembro de 1959) |
| Os nomes dos sentinelas são conhecidos? | Não |
| O apagão foi confirmado? | Não, segundo a pesquisa de Edison Boaventura Jr. |
| O comandante do forte viu algo? | Segundo o filho, viu uma luz descer sobre os canhões |
| O Exército confirmou o caso? | Não |
| A história completa é comprovada? | Não; pesquisadores a consideram apenas parcialmente autêntica |
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Fontes e Referências
- O Cruzeiro — nota sobre objeto aéreo não identificado sobre o Forte de Itaipu, 22 de fevereiro de 1958
- Mundo Ilustrado — série de reportagens de Robert E. Sullivan, nº 50 a 53, novembro e dezembro de 1958
- Fontes, Olavo T. — "Shadows of the Unknown: Friends or Foes", The A.P.R.O. Bulletin, setembro de 1959
- Boaventura Jr., Edison — pesquisa sobre o Caso do Forte de Itaipu, Grupo Ufológico do Guarujá (2008), republicada no Portal Fenomenum — https://www.fenomenum.com.br/o-caso-do-forte-de-itaipu/
- Costa Norte — "Avistamento de OVNI em Praia Grande já chamou a atenção até dos EUA" — https://costanorte.com.br/cidades/praiagrande/avistamento-de-ovni-em-praia-grande-ja-chamou-a-atencao-ate-dos-eua-1404387.html
- Correio Braziliense — reportagem sobre Praia Grande, a Fortaleza de Itaipu e o serviço militar de Pelé
- Tupi FM — reportagem sobre a Fortaleza de Itaipu, construída a partir de 1902