Uma Europa Ainda em Estado de Alerta
Em 1946, a Segunda Guerra Mundial havia terminado há menos de um ano. A Europa estava devastada, a União Soviética consolidava sua influência sobre o Leste Europeu e as potências ocidentais começavam a perceber que uma nova disputa tecnológica e militar estava tomando forma.
Foi nesse cenário que uma série de estranhos objetos começou a ser observada sobre a Escandinávia.
Principalmente na Suécia, testemunhas civis e militares relataram objetos luminosos ou semelhantes a foguetes atravessando o céu em velocidades aparentemente elevadas. Alguns pareciam possuir formato cilíndrico ou alongado; outros eram descritos como corpos luminosos acompanhados por caudas ou rastros.
A imprensa rapidamente passou a chamá-los de “Ghost Rockets”, ou “Foguetes Fantasmas”.
O fenômeno não ficou restrito a uma única testemunha ou a uma única noite. Durante 1946, milhares de observações foram registradas na Suécia, com ocorrências também na Noruega, Finlândia e Dinamarca. O Arquivo de UFO-Sweden/AFU confirma que os acontecimentos de 1946 deram origem a uma investigação própria das Forças Armadas suecas.
E havia uma razão para a preocupação.
Apenas um ano antes, a Alemanha nazista havia utilizado armas como o V-1 e o V-2, demonstrando que projéteis guiados e foguetes capazes de atravessar grandes distâncias já não pertenciam ao campo da ficção científica.
A pergunta que surgiu nos círculos militares era, portanto, bastante objetiva:
A União Soviética havia conseguido capturar tecnologia alemã e estava testando novos mísseis sobre o território escandinavo?
Ou os céus estavam mostrando algo que as forças armadas ainda não conseguiam identificar?
O Início da Onda dos Foguetes Fantasmas
Os primeiros relatos associados à onda de 1946 apareceram no início daquele ano, com observações na Finlândia em fevereiro. A atividade aumentou significativamente durante a primavera e o verão, especialmente na Suécia.
Relatórios contemporâneos descreviam objetos que podiam parecer meteoros à primeira vista, mas algumas testemunhas afirmavam ter observado trajetórias horizontais, mudanças de direção, velocidades aparentemente moderadas e características semelhantes às de projéteis artificiais.
A intensidade do fenômeno chamou rapidamente a atenção das autoridades.
Documentos históricos e arquivos suecos indicam que aproximadamente 2.000 relatos foram registrados durante a onda de 1946. O número exato varia conforme a forma de contabilização dos registros, mas a dimensão do fenômeno não é seriamente questionada.
A Força de Defesa sueca passou a coletar os relatos e investigar os casos considerados mais relevantes.
O fenômeno também despertou interesse britânico e norte-americano.
O motivo era simples: em uma Europa recém-saída da guerra, qualquer possível atividade relacionada a foguetes, mísseis ou aeronaves desconhecidas poderia representar uma questão de segurança nacional.
O Que as Testemunhas Diziam Ter Visto
Os relatos não eram uniformes.
Esse é um detalhe importante.
A expressão “foguete fantasma” pode dar a impressão de que todos os objetos apresentavam exatamente o mesmo aspecto. Os documentos históricos mostram algo muito mais complexo.
Algumas testemunhas descreviam objetos semelhantes a foguetes ou cilindros.
Outras relatavam bolas de fogo.
Havia também relatos de objetos luminosos que atravessavam o céu deixando rastros.
Em determinadas ocasiões, testemunhas afirmaram ter observado objetos voando relativamente baixo e em trajetórias aparentemente horizontais.
Um relatório britânico posteriormente preservado nos Arquivos Nacionais do Reino Unido descreve a preocupação causada pelos relatos e registra que, em determinados dias, centenas de observações foram feitas.
A imprensa da época também registrou descrições de objetos que aparentemente se deslocavam do sudeste para o noroeste sobre a Suécia. Algumas reportagens chegaram a mencionar supostas quedas e explosões.
Mas havia um problema gigantesco:
quase nunca havia um objeto físico para examinar.
A Escala do Fenômeno
A dimensão da onda ajuda a explicar por que governos e militares não puderam simplesmente ignorá-la.
| Característica | Informação documentada |
| Período principal | 1946 |
| Região principal | Suécia |
| Outros países envolvidos | Noruega, Finlândia e Dinamarca |
| Relatos registrados | Cerca de 2.000 na Suécia |
| Investigação | Defesa sueca e órgãos de inteligência estrangeiros |
| Principais descrições | Objetos luminosos, foguetes, cilindros e bolas de fogo |
| Possíveis rastros | Relatados em diversos casos |
| Radar | Relatos de detecções em alguns episódios |
| Fragmentos físicos | Não houve recuperação conclusiva que estabelecesse a origem dos objetos |
| Hipóteses principais | Meteoros, aeronaves, mísseis, testes militares e outras possibilidades |
| Origem extraterrestre | Não demonstrada |
É importante fazer uma distinção entre número de relatos e número de objetos reais.
Dois mil relatos não significam dois mil foguetes.
Uma única ocorrência podia ser observada por dezenas ou centenas de pessoas, enquanto fenômenos naturais extremamente brilhantes também podiam gerar grandes ondas de testemunhos.
Essa distinção seria fundamental para as avaliações militares posteriores.
A Hipótese dos Meteoros
Uma das primeiras explicações consideradas pelas autoridades foi bastante convencional: meteoros.
E havia bons motivos para isso.
A região havia registrado diversos eventos luminosos no céu, e alguns dos períodos de maior atividade dos “foguetes fantasmas” coincidiram com períodos de intensa atividade meteorítica.
Os dias 9 e 11 de agosto de 1946, por exemplo, foram particularmente intensos. Registros históricos indicam centenas de observações em determinados episódios.
A coincidência com a atividade da chuva de meteoros Perseidas tornou a explicação astronômica particularmente atraente.
Mas ela não resolveu tudo.
Alguns relatos descreviam objetos aparentemente lentos, voando horizontalmente ou apresentando características que, segundo as testemunhas, não pareciam compatíveis com um meteoro.
Isso criou uma situação desconfortável para os investigadores:
os meteoros poderiam explicar parte dos relatos, mas não necessariamente todos.
O Problema das Trajetórias
Um dos aspectos que mais preocupava os militares era justamente a descrição das trajetórias.
Um meteoro normalmente entra na atmosfera em uma trajetória balística determinada por sua velocidade, ângulo de entrada e interação com a atmosfera.
Mas algumas testemunhas dos “foguetes fantasmas” descreviam movimentos que pareciam diferentes.
Havia relatos de objetos que:
- voavam horizontalmente;
- pareciam manter altitude relativamente baixa;
- apresentavam velocidades aparentemente menores que as de meteoros;
- mudavam de direção;
- pareciam emitir luz ou fogo de maneira contínua;
- desapareciam sem deixar destroços identificáveis.
Isso levou alguns observadores militares a considerar que determinados relatos poderiam envolver objetos artificiais.
E foi aí que a Guerra Fria entrou definitivamente na história.
Peenemünde e o Fantasma da Tecnologia Alemã
Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha havia desenvolvido tecnologias de foguetes e armas de longo alcance extremamente avançadas para a época.
O centro de Peenemünde, localizado no território alemão, havia sido fundamental para o desenvolvimento dos programas V-1 e V-2.
Depois da derrota alemã, equipamentos, instalações e especialistas relacionados à tecnologia de foguetes foram disputados pelas potências vencedoras.
A União Soviética assumiu o controle de parte do território alemão e passou a ter acesso a importantes recursos tecnológicos alemães.
Diante disso, surgiu uma hipótese bastante natural para os serviços de inteligência ocidentais:
os “foguetes fantasmas” poderiam ser testes soviéticos de armas derivadas da tecnologia alemã capturada.
Documentos de inteligência norte-americanos preservados posteriormente mostram que essa hipótese foi realmente considerada.
O Memorando de Hoyt Vandenberg
Um dos documentos mais importantes relacionados ao episódio foi produzido em agosto de 1946 pelo então diretor do Central Intelligence Group (CIG), Tenente-General Hoyt S. Vandenberg.
O documento foi encaminhado ao presidente norte-americano Harry Truman.
A avaliação norte-americana considerava que o conjunto das informações disponíveis apontava para uma possível relação entre os fenômenos e a antiga área alemã de Peenemünde.
A hipótese discutida era a de que os soviéticos poderiam estar realizando testes com versões de maior alcance do V-1 ou tecnologias derivadas dele, utilizando áreas sob controle soviético.
O próprio documento, entretanto, deve ser lido com cuidado.
Ele não afirmava que os foguetes soviéticos haviam sido comprovadamente identificados.
Tratava-se de uma avaliação de inteligência baseada em informações incompletas.
Essa diferença é fundamental.
Uma hipótese considerada pela inteligência não é equivalente a uma conclusão comprovada.
O Papel de James Doolittle
Outro episódio extraordinário ocorreu em agosto de 1946.
O famoso general norte-americano James “Jimmy” Doolittle, veterano da Segunda Guerra Mundial, esteve em Estocolmo.
Doolittle não estava oficialmente realizando uma missão pública relacionada aos “foguetes fantasmas”. Entretanto, documentos e relatos históricos indicam que ele recebeu informações sobre os acontecimentos e teve contato com autoridades suecas.
Também esteve envolvido nas discussões o empresário e especialista em comunicações David Sarnoff, que tinha importantes vínculos com o setor militar e de inteligência norte-americano.
O interesse dos americanos demonstrava que os acontecimentos não eram tratados apenas como uma curiosidade jornalística.
Para Washington, havia uma pergunta estratégica:
os soviéticos poderiam ter adquirido uma capacidade de mísseis muito mais rapidamente do que o Ocidente imaginava?
O Relato do Oficial Sueco
Um dos elementos que aumentou a preocupação foi o envolvimento direto de militares suecos.
O então Estado-Maior de Defesa sueco recebeu relatos de seus próprios observadores e militares.
Um documento norte-americano de agosto de 1946 registrou que a Defesa sueca insistia que alguns dos objetos eram efetivamente foguetes, embora não houvesse evidência material suficiente naquele momento para estabelecer sua origem.
Isso é particularmente interessante.
A questão não era simplesmente:
“As pessoas estão vendo coisas estranhas.”
Era:
“Alguns militares acreditam estar observando objetos físicos de natureza desconhecida.”
Mas a própria documentação americana também mostra que havia divergências dentro das estruturas de inteligência.
Alguns analistas consideravam possíveis explicações alternativas, incluindo meteoros, aeronaves, rastros de aviões e até a possibilidade de interpretações equivocadas produzidas pela própria imprensa.
O Caso do Lago Kölmjärv
Um dos episódios mais famosos ocorreu em 19 de julho de 1946, no lago Kölmjärv, na Suécia.
Testemunhas afirmaram ter visto um objeto semelhante a um foguete ou míssil atingir o lago.
A ocorrência provocou uma operação de busca realizada pelas autoridades suecas.
O resultado foi frustrante.
Nenhum destroço conclusivo foi recuperado.
A investigação teria encontrado alterações no fundo do lago, mas não conseguiu recuperar um objeto que pudesse ser identificado como um foguete.
O oficial sueco Karl-Gösta Bartoll, que participou da investigação, posteriormente sustentou que havia evidências de que algo físico havia ocorrido e considerou a possibilidade de que o objeto tivesse se desintegrado.
Essa hipótese nunca foi demonstrada de maneira conclusiva.
E justamente por isso Kölmjärv permanece como um dos episódios mais controversos da onda.
A Busca por Destroços
A ausência de fragmentos identificáveis tornou-se um dos maiores obstáculos para a hipótese de mísseis.
Se os objetos eram realmente foguetes soviéticos, seria razoável esperar que pelo menos alguns deles deixassem:
- componentes metálicos;
- partes de motores;
- estruturas de controle;
- combustível residual;
- fragmentos de fuselagem;
- materiais de fabricação.
Mas os investigadores não conseguiram produzir uma cadeia de evidências desse tipo capaz de demonstrar definitivamente uma origem soviética.
Alguns relatos mencionaram possíveis fragmentos, mas nenhum conjunto de evidências físicas foi suficientemente conclusivo para resolver o fenômeno.
Esse detalhe é frequentemente perdido quando a história é contada décadas depois.
O mistério permaneceu justamente porque nenhuma das grandes hipóteses conseguiu explicar satisfatoriamente todos os dados.
O Que a Inteligência Americana Realmente Sabia
Os documentos disponíveis mostram algo mais interessante do que a ideia simplista de que os Estados Unidos “descobriram que eram mísseis soviéticos”.
Na realidade, os arquivos revelam incerteza.
Um relatório do adido naval americano em Estocolmo, datado de agosto de 1946, registrava que não havia evidência tangível suficiente para determinar a natureza ou origem dos objetos. O documento também registrava dúvidas sobre a possibilidade de uma origem soviética ou britânica e mencionava explicações alternativas.
Isso é extremamente importante.
A inteligência americana não possuía uma resposta definitiva.
Possuía hipóteses.
E uma delas — provavelmente a mais preocupante do ponto de vista estratégico — era a possibilidade de que a União Soviética estivesse experimentando tecnologia derivada dos programas alemães.
Uma Questão de Guerra Fria
O contexto geopolítico não pode ser separado do fenômeno.
Em 1946, a União Soviética ainda não possuía a bomba atômica.
Os Estados Unidos haviam utilizado armas nucleares contra Hiroshima e Nagasaki apenas um ano antes.
A tecnologia de foguetes estava avançando rapidamente.
A Alemanha havia demonstrado que armas guiadas poderiam atravessar grandes distâncias.
E ninguém no Ocidente sabia exatamente o que Moscou havia conseguido obter dos cientistas e instalações alemães.
Nesse ambiente, um objeto desconhecido sobrevoando a Suécia não era apenas um possível OVNI.
Poderia ser um teste militar secreto.
Ou, pior:
poderia ser um teste militar secreto de uma potência adversária.
A Suécia Entre Dois Blocos
A posição da Suécia também tornava o episódio particularmente sensível.
O país permanecia oficialmente neutro, mas estava geograficamente próximo da União Soviética e do espaço estratégico do Báltico.
Qualquer atividade aérea incomum na região poderia possuir implicações militares.
Uma pesquisa acadêmica recente sobre os arquivos históricos suecos destaca justamente esse aspecto: a onda dos “foguetes fantasmas” foi incorporada ao ambiente de tensão entre Leste e Oeste no início da Guerra Fria, inclusive influenciando preocupações suecas relacionadas à defesa aérea e à tecnologia de radar.
Portanto, investigar os objetos não era apenas uma questão científica.
Era também uma questão de segurança nacional.
A Hipótese de um Teste Soviético
A hipótese soviética apresentava uma lógica relativamente simples.
A União Soviética havia capturado instalações e conhecimento alemães.
Peenemünde estava sob controle soviético.
Os soviéticos estavam interessados em desenvolver seus próprios foguetes.
E os objetos relatados pareciam, em alguns casos, semelhantes a armas.
Portanto:
poderiam ser testes de mísseis derivados dos projetos alemães.
Mas existia um problema.
Não foram encontrados registros independentes capazes de confirmar que os objetos observados sobre a Escandinávia eram lançamentos soviéticos realizados a partir de Peenemünde.
Também não existe evidência documental conclusiva que permita afirmar hoje que a onda inteira de 1946 foi causada por testes soviéticos.
Essa hipótese continua sendo uma possibilidade histórica, não uma solução comprovada.
E a Hipótese Extraterrestre?
Com o passar das décadas, os “foguetes fantasmas” foram incorporados à literatura ufológica como um dos primeiros grandes episódios modernos de objetos aéreos não identificados.
Mas os documentos originais não permitem afirmar que os objetos fossem extraterrestres.
Na verdade, os registros militares contemporâneos mostram que as autoridades estavam principalmente preocupadas com explicações terrestres:
meteoritos, aeronaves, mísseis, testes militares ou outros fenômenos convencionais ainda não identificados.
Isso torna o caso mais interessante, não menos.
Porque o mistério não depende da afirmação de que “eram alienígenas”.
O fato histórico mais sólido é outro:
militares e serviços de inteligência de diferentes países realmente investigaram uma grande quantidade de fenômenos aéreos que não conseguiam identificar satisfatoriamente.
O Que Podemos Considerar Evidência?
Para analisar o episódio com rigor, é necessário separar os diferentes níveis de evidência.
| Evidência | Existência | Força |
| Grande quantidade de testemunhos | Sim | Alta para demonstrar que houve uma onda de relatos |
| Investigação militar sueca | Sim | Alta |
| Interesse da inteligência americana | Sim | Alta |
| Relatórios diplomáticos e militares | Sim | Alta |
| Alguns relatos de radar | Documentados em fontes históricas | Relevante, mas limitado |
| Supostos impactos | Sim, em alguns relatos | Inconclusivo |
| Destroços identificáveis | Não de forma conclusiva | Fraca |
| Origem soviética | Hipótese considerada | Não comprovada |
| Origem extraterrestre | Não demonstrada | Não comprovada |
| Explicação por meteoros | Provável para parte dos casos | Não explica necessariamente todos |
Essa tabela resume talvez a característica mais importante do caso:
há evidência abundante de que o fenômeno foi real como evento histórico e investigativo, mas não há evidência suficiente para determinar uma única causa para todos os relatos.
O Que Aconteceu com os “Foguetes Fantasmas”?
A onda perdeu intensidade ao longo do tempo.
Os relatos não desapareceram completamente, mas a explosão de ocorrências de 1946 não se repetiu com a mesma intensidade.
Enquanto isso, a preocupação militar com foguetes soviéticos continuou.
O episódio também ajudou a demonstrar uma deficiência importante na defesa aérea sueca: a necessidade de melhorar sistemas de detecção e acompanhamento de objetos desconhecidos.
A documentação histórica mostra que a Suécia posteriormente ampliou sua atenção institucional ao fenômeno aéreo não identificado. Arquivos militares relacionados a investigações de UFOs continuaram sendo mantidos durante décadas.
O Legado de Kölmjärv
O incidente do lago Kölmjärv tornou-se uma espécie de símbolo de toda a onda.
Um objeto teria sido observado por testemunhas.
Um impacto teria sido percebido.
Militares realizaram uma busca.
O fundo do lago apresentava alterações.
Mas nenhum fragmento conclusivo apareceu.
É justamente o tipo de história que alimenta tanto a investigação científica quanto a imaginação popular.
Para um investigador cético, a ausência de material recuperado representa uma grande limitação.
Para um ufólogo, a ausência de destroços pode ser interpretada como evidência de uma tecnologia desconhecida.
Mas a documentação disponível permite uma conclusão mais prudente:
não sabemos exatamente o que aconteceu naquele episódio.
E isso é muito diferente de afirmar que sabemos que se tratava de uma nave extraterrestre.
A Importância do Documento DOW-UAP-D099
O registro DOW-UAP-D099 é particularmente interessante porque representa uma perspectiva de inteligência sobre os acontecimentos.
Ele não deve ser tratado como um documento que “prova os foguetes fantasmas”.
Seu valor está em mostrar como uma agência governamental americana avaliava o fenômeno no contexto imediato do pós-guerra.
O documento evidencia três elementos:
Primeiro: os relatos eram numerosos o suficiente para merecer atenção internacional.
Segundo: autoridades militares consideravam seriamente a possibilidade de objetos artificiais.
Terceiro: a origem desses objetos permanecia incerta.
Essa última característica é talvez a mais importante.
O documento não encerra o mistério.
Ele demonstra que, em 1946–1947, o mistério já era suficientemente relevante para chegar aos níveis superiores da inteligência norte-americana.
Uma História Antes dos Discos Voadores
Existe ainda uma dimensão histórica fascinante.
A grande onda dos “foguetes fantasmas” ocorreu antes da famosa onda de discos voadores de 1947 nos Estados Unidos.
O episódio antecedeu o avistamento de Kenneth Arnold, ocorrido em junho de 1947, que ajudaria a popularizar mundialmente a expressão “flying saucers”.
Ou seja, os acontecimentos escandinavos pertencem a uma fase muito inicial da história moderna dos fenômenos aéreos não identificados.
Naquele momento, ninguém ainda possuía a linguagem moderna de “UAP”.
A preocupação era descrita em termos de:
foguetes, mísseis, meteoros, aeronaves desconhecidas e armas experimentais.
Essa diferença de linguagem é importante.
O fenômeno não nasceu como uma narrativa extraterrestre.
Ele nasceu como um problema de identificação e segurança aérea.
O Que os Foguetes Fantasmas Nos Ensinam Hoje
O caso de 1946 continua relevante porque demonstra uma situação que ainda aparece nas discussões modernas sobre UAPs:
detectar algo não significa compreender o que foi detectado.
Um radar pode registrar um contato.
Um piloto pode observar uma luz.
Dezenas de pessoas podem testemunhar o mesmo fenômeno.
Um serviço de inteligência pode considerar determinada hipótese.
E ainda assim a conclusão final pode permanecer aberta.
Foi exatamente isso que aconteceu na Escandinávia.
A grande diferença é que, naquela época, os governos estavam tentando descobrir se aquilo representava uma nova tecnologia militar.
Hoje, a terminologia mudou.
Falamos em UAP — Unidentified Anomalous Phenomena.
Mas a pergunta fundamental continua praticamente a mesma:
o que exatamente estamos vendo?
Entre Mísseis, Meteoros e o Desconhecido
A explicação mais provável para a onda completa não parece ser uma única causa.
Meteoros provavelmente explicaram parte das observações.
Aeronaves, fenômenos atmosféricos e interpretações equivocadas também podem ter contribuído.
É possível que alguns episódios tenham envolvido tecnologia militar.
E alguns relatos permaneceram sem explicação satisfatória.
O que não podemos fazer, com base nas evidências disponíveis, é transformar uma hipótese em certeza.
Não há base documental suficiente para afirmar que os “Foguetes Fantasmas” eram uma frota soviética secreta.
Também não há base para afirmar que eram veículos extraterrestres.
O que existe é algo mais interessante:
uma enorme onda de fenômenos aéreos observados em uma região estrategicamente sensível, investigada por militares e analisada por serviços de inteligência em um dos momentos mais delicados da história moderna.
Conclusão: O Mistério que Nasceu com a Guerra Fria
Os “Foguetes Fantasmas” de 1946 permanecem como um dos grandes episódios históricos da investigação de fenômenos aéreos não identificados.
Não porque tenham provado a existência de visitantes extraterrestres.
Não porque tenham sido definitivamente identificados como armas soviéticas.
Mas porque revelam algo muito mais concreto.
Governos realmente não sabiam o que estavam observando.
A Suécia investigou.
Os Estados Unidos coletaram informações.
A inteligência analisou a possibilidade de tecnologia soviética derivada dos projetos alemães.
Meteoros foram considerados.
Mísseis foram considerados.
Aeronaves foram consideradas.
E, mesmo depois de toda essa movimentação, alguns episódios permaneceram sem uma explicação definitiva.
Quase oitenta anos depois, talvez essa seja a parte mais fascinante da história.
Em 1946, o mundo estava entrando na Guerra Fria e aprendendo que o céu havia se transformado em um novo campo de disputa tecnológica.
Os “foguetes fantasmas” poderiam ter sido meteoros.
Poderiam ter sido aeronaves ou armas experimentais.
Poderiam representar uma combinação de fenômenos diferentes.
Mas os documentos históricos nos permitem afirmar uma coisa com segurança:
durante 1946, alguma coisa extraordinária aconteceu nos céus da Escandinávia — e os governos da época levaram o suficiente a sério para investigar.
O mistério, esse, nunca recebeu uma resposta definitiva.
E talvez seja justamente por isso que os “Foguetes Fantasmas” continuam voando pela história.
Registros e Documentos Históricos
DOW-UAP-D099 — Análise de inteligência dos incidentes dos “Foguetes Fantasmas”, 1947
Documento associado à avaliação norte-americana dos relatos escandinavos e às hipóteses de possível origem tecnológica.
Arquivos da Defesa Sueca
A investigação militar sueca de 1946 produziu documentação extensa sobre os relatos. Parte desse material passou posteriormente por processos de preservação e digitalização. O arquivo UFO-Sweden/AFU registra milhares de documentos relacionados a investigações suecas de fenômenos aéreos.
Memorando de Hoyt S. Vandenberg — 22 de agosto de 1946
Documento de inteligência norte-americano encaminhado ao presidente Harry Truman discutindo a possibilidade de uma origem associada a Peenemünde e tecnologia derivada do V-1.
Relatórios do adido naval norte-americano em Estocolmo
Os documentos registravam tanto a preocupação sueca quanto a ausência de evidência material suficiente para determinar definitivamente a natureza ou origem dos objetos.
Fontes e Referências
- Swedish Defence Staff — arquivos históricos da investigação dos “Ghost Rockets” de 1946
- U.S. Central Intelligence Group — memorando de Hoyt S. Vandenberg ao presidente Harry Truman, agosto de 1946
- U.S. Naval Attaché, Stockholm — relatórios de inteligência sobre os objetos observados sobre a Suécia, 1946
- National Archives of the United Kingdom — documentação histórica sobre os “Ghost Rockets” escandinavos.
- Archives for the Unexplained (AFU) — arquivos suecos relacionados às investigações militares de fenômenos aéreos.
- Project 1947 — coleção documental e cronologia histórica dos “Ghost Rockets”.
- U.S. National Archives — documentos de inteligência relacionados aos incidentes escandinavos de 1946.
- Clark, Jerome — documentação histórica sobre os “Ghost Rockets” e os arquivos de inteligência norte-americanos.
- Carpenter, Joel — cronologia documental dos incidentes dos “Ghost Rockets”.