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O Atacama, os Telescópios e os UAP: O Que o Céu Mais Observado da Terra Realmente Registra ⏱ 17 min

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O Atacama, os Telescópios e os UAP: O Que o Céu Mais Observado da Terra Realmente Registra

Existe um argumento intuitivo e sedutor sobre o deserto do Atacama.

Se aquele é o céu mais limpo, mais seco e mais vigiado do planeta — com os instrumentos astronômicos mais sensíveis já construídos apontados para ele todas as noites —, então é ali que fenômenos aéreos anômalos deveriam ser detectados com mais frequência.

O argumento parece óbvio.

E ele corre exatamente no sentido contrário do que os dados mostram.

Este artigo examina o que o órgão oficial chileno realmente registrou, o que aconteceu com o caso UAP mais famoso do país, e o que o exame científico revelou sobre o pequeno esqueleto encontrado numa cidade mineradora abandonada do deserto.

Nenhuma dessas três histórias termina onde a versão popular termina.

Por que o Atacama

A geografia determina as condições de observação.

Espremido entre a Cordilheira dos Andes e o Pacífico, no norte do Chile, o Atacama combina umidade baixíssima, altitude elevada, estabilidade atmosférica e ausência quase completa de poluição luminosa.

Isso fez da região o principal polo de astronomia da Terra. Dois exemplos:

Esses instrumentos observam aquele céu continuamente há décadas, com sensibilidade que nenhum radar militar alcança.

A vigilância oficial chilena: de Arica ao SEFAA

O Chile tem uma das mais antigas estruturas oficiais de investigação de fenômenos aéreos anômalos do continente — e sua origem está justamente no norte do país.

1968. Em resposta a uma série de avistamentos ocorridos em Arica, no extremo norte chileno, no fim de março daquele ano, foi criada em 9 de julho a Comisión Chilena para Estudios de Fenómenos Espaciales No Identificados, vinculada à Oficina Meteorológica Nacional. Funcionou até 1975.

1997. Em 3 de outubro, pela Resolução nº 01599, assinada pelo diretor-geral de Aeronáutica Civil, general Gonzalo Miranda, foi criado o CEFAA — Comité de Estudios de Fenómenos Aéreos Anómalos, vinculado à DGAC. Sua sede inicial ficou na Escuela Técnica Aeronáutica, em Quinta Normal, Santiago.

2014. Após anos de baixo perfil por falta de verba e de interesse das autoridades, o CEFAA foi reativado em dezembro, com sede própria e orçamento anual em torno de 100 mil dólares.

2021. Em 18 de outubro, a Resolução nº 01599 foi revogada. Pela Resolução Exenta nº 04/3/0113/1385, o órgão passou a se chamar SEFAA — Sección de Estudios de Fenómenos Aéreos Anómalos.

O SEFAA funciona hoje em Cerrillos, Santiago, ao lado do Museu Nacional Aeronáutico e do Espaço.

O caso que definiu a ufologia chilena

O episódio mais discutido internacionalmente na história recente do Chile é também o melhor estudo de caso disponível sobre como esses registros funcionam — do começo ao fim.

E vale começar por uma honestidade geográfica: ele não aconteceu no Atacama.

O registro

Em 11 de novembro de 2014, um helicóptero da Marinha do Chile realizava patrulha costeira de rotina a oeste de Santiago, a cerca de 4.500 pés de altitude.

A bordo, dois oficiais. O operador da câmera captou, com um sistema infravermelho Wescam montado na aeronave, um objeto avistado inicialmente a olho nu, a uma distância estimada entre 35 e 40 milhas.

O objeto aparecia na imagem térmica emitindo o que foi descrito como duas descargas semelhantes a holofotes térmicos, deixando um rastro.

A tripulação tentou contato por rádio, sem resposta. Acionou então duas estações de radar próximas. Nenhuma das duas detectou o objeto — embora ambas detectassem o helicóptero normalmente.

A gravação tem cerca de dez minutos.

A investigação

O CEFAA estudou o material por aproximadamente dois anos, reunindo meteorologistas, astrônomos, analistas de imagem e oficiais militares.

O organismo francês GEIPAN ofereceu uma hipótese: uma aeronave de médio alcance despejando água residual de cabine antes do pouso. O comitê chileno rejeitou. Os argumentos foram sólidos: despejo desse tipo exige autorização e zona designada, não havia rota de pouso compatível nas imediações, não houve corroboração de radar e seria improvável que pilotos experientes não reconhecessem um avião.

Em janeiro de 2017, o CEFAA divulgou o vídeo, classificando o objeto como fenômeno aéreo anômalo não identificado.

O material viralizou. Em poucos dias acumulou quase dois milhões de visualizações.

A explicação

Semanas depois, analistas independentes reunidos no fórum Metabunk, coordenados por Mick West, aplicaram um método que ninguém havia tentado: consultar os registros de tráfego aéreo daquele dia.

Dois voos estavam na área compatível: LA330, de Santiago a La Serena, e IB6830, da Iberia, de Santiago a Madri — um Airbus A340 de quatro motores.

Com dados de GPS registrados e análise tridimensional, usando a linha costeira e as montanhas do vídeo para determinar a orientação exata da câmera, o grupo concluiu que o IB6830 era compatível com as imagens. O que aparecia como rastro seria uma esteira de condensação aerodinâmica, e as "descargas térmicas" seriam a exaustão dos motores vista em infravermelho.

E a análise resolveu o ponto mais forte do caso — a ausência no radar.

O CEFAA havia descartado a hipótese de esteira de condensação por acreditar que o objeto estava próximo demais do solo para que ela se formasse — o que só era verdade se a distância estimada estivesse correta.

O que ainda está em disputa

Seria desonesto encerrar aqui como se o caso estivesse fechado por unanimidade.

O pesquisador Robert Powell analisou os ângulos de câmera do helicóptero em relação às imagens de radar e concluiu que o IB6830 estaria em ângulo excessivamente aberto, muito a leste, para ter sido captado pela câmera.

Há ainda variação entre analistas sobre qual dos dois voos seria o candidato — parte das compilações aponta o LA330.

E o SEFAA nunca revisou publicamente sua classificação.

O esqueleto de La Noria

Nenhum texto sobre o Atacama e o fenômeno UAP pode ignorar o caso que mais projetou a região no imaginário mundial. Mas ele precisa ser contado inteiro.

O achado

Em 2003, Oscar Muñoz explorava La Noria, um povoado abandonado de mineração de nitrato no deserto do Atacama, quando encontrou um pequeno embrulho de pano branco, amarrado com uma fita roxa.

Dentro havia um esqueleto parcialmente mumificado, de aproximadamente 15 centímetros, com crânio alongado e número atípico de costelas.

Foi apelidado de Ata. Acabou nas mãos de um colecionador espanhol, virou atração de documentário ufológico e circulou por anos como possível prova de presença biológica extraterrestre.

O exame

Em 2018, uma equipe liderada pelo imunologista Garry Nolan, de Stanford, e por Atul Butte, da Universidade da Califórnia em São Francisco, publicou na revista Genome Research o sequenciamento do genoma.

A conclusão: humano. Uma menina chilena, natimorta ou morta pouco após o nascimento. Os pesquisadores identificaram 64 mutações que atribuíram à formação óssea, e associaram a esse quadro os dez pares de costelas — humanos adultos têm doze — e o formato do crânio.

Até aqui, é a versão que circula. E ela para exatamente onde a história fica séria.

A contestação científica

Uma equipe internacional liderada pela Universidade de Otago, com as pesquisadoras Siân Halcrow e Kristina Killgrove, contestou o estudo.

O argumento: as análises genômicas foram desnecessárias e injustificadas, e o esqueleto é o de um feto em desenvolvimento normal, por volta das 15 semanas de gestação.

Nessa leitura, não há mistério nenhum a explicar. Crânio alongado e número reduzido de costelas ossificadas são simplesmente o que um feto de 15 semanas parece. Nenhuma mutação exótica é necessária.

O antropólogo William Jungers resumiu: trata-se de um feto desidratado de um ser humano cuja gestação terminou precocemente, por razões desconhecidas.

Halcrow acrescentou uma advertência dirigida a pesquisadores de DNA: cautela ao se envolver em casos que carecem de contexto e legalidade claros, ou em que os restos estiveram em coleções particulares.

O escândalo ético

Esta é a parte que praticamente nenhum site de ufologia conta.

A bióloga Cristina Dorador, da Universidade de Antofagasta, classificou o estudo como um ultraje: se as amostras são obtidas de forma antiética, a ciência resultante também é antiética.

Os pontos concretos:

Sociedades científicas chilenas condenaram formalmente a pesquisa. A Sociedade Chilena de Antropologia Biológica, presidida por Nicolás Montalva, perguntou publicamente se alguém imaginaria o mesmo estudo sendo conduzido com o corpo de um bebê abortado na Europa ou nos Estados Unidos, e acusou a equipe de transformar uma história aparentemente trágica em espetáculo.

A antropóloga Francisca Santana-Sagredo, das universidades de Antofagasta e de Oxford, declarou ao New York Times que o caso é ofensivo para a menina, para sua família e para o patrimônio do Chile — e manifestou preocupação de que o episódio estimulasse mais saque de restos humanos.

Houve pedidos de retratação. A editora da Genome Research, Hilary Sussman, reconheceu falha no tratamento das questões éticas, atribuída a um erro de protocolo posteriormente corrigido. Os autores publicaram resposta reconhecendo as preocupações e defendendo a repatriação dos restos.

As explicações convencionais no norte do Chile

Vale reunir as hipóteses convencionais que se aplicam à região — e uma delas é irônica.

Os próprios observatórios. O VLT dispara lasers de estrela-guia: feixes alaranjados apontados para o céu noturno, visíveis a olho nu, usados para calibrar a óptica adaptativa. Um dos instrumentos mais avançados do mundo produz, literalmente, luzes estranhas no céu do deserto.

Satélites e reentradas. O céu excepcionalmente limpo torna visíveis a olho nu passagens de satélites e reentradas incandescentes de detrito orbital. Astrônomos chilenos vêm denunciando o impacto das grandes constelações de satélites justamente sobre o céu mais escuro do planeta — os mesmos trens de pontos luminosos que geram ondas de relatos de OVNI mundo afora.

Inversão térmica. O contraste entre o calor do deserto e o ar frio dos Andes favorece refrações ópticas, capazes de deslocar visualmente luzes de mineradoras e de veículos.

Atividade militar e mineradora. A região concentra exercícios militares, patrulhas de fronteira, drones e sinalizadores, além de operação mineradora ininterrupta com iluminação intensa e tráfego aéreo próprio.

O que se pode afirmar

Documentado

O Atacama abriga os principais observatórios astronômicos do mundo, incluindo ALMA e VLT. O Chile mantém desde 1968, com interrupções, estrutura oficial de investigação de fenômenos aéreos anômalos, hoje denominada SEFAA. Em novembro de 2014, um helicóptero da Marinha registrou em infravermelho um objeto a oeste de Santiago; o CEFAA investigou por dois anos e o classificou como não identificado em janeiro de 2017. Em 2003, um esqueleto fetal humano de 15 centímetros foi encontrado em La Noria; análise genômica de 2018 confirmou origem humana, e o estudo foi contestado por razões científicas e éticas.

Relatado

Avistamentos por pilotos comerciais, operadores de radar e trabalhadores de mineração no norte chileno. Esses relatos existem na literatura do tema, mas não localizamos casos individuais com data, número de registro e documentação que permitissem verificação. Afirmações sobre volume ou frequência de ocorrências na região não puderam ser confirmadas.

Hipótese

Que o vídeo de 2014 corresponda ao voo IB6830 — a explicação mais bem sustentada, ainda assim contestada por parte dos analistas.

Sem sustentação

Que fenômenos de origem não humana operem no espaço aéreo do norte do Chile. Que o esqueleto de La Noria tenha qualquer relação com o tema. Que os grandes observatórios tenham registrado fenômenos anômalos.

Conclusão

O Atacama é, com folga, o melhor lugar da Terra para olhar para cima. E é por isso mesmo que o resultado desta apuração é o que é.

O caso UAP mais bem documentado do Chile aconteceu a mais de mil quilômetros do deserto, na costa perto de Santiago, e provavelmente era um Airbus A340 a caminho de Madri — embora o órgão oficial nunca tenha revisado a classificação e parte dos analistas continue discordando.

O "alienígena do Atacama" era uma menina, e a história dela é sobre tráfico de restos humanos, não sobre visitantes.

E os instrumentos mais sensíveis já apontados para aquele céu, operando há décadas, não registraram nada anômalo — mas produzem, eles próprios, os feixes de laser e as passagens de satélite que alimentam parte dos relatos.

Isso não encerra a discussão sobre fenômenos aéreos não identificados no Chile. O SEFAA continua existindo, continua recebendo reportes de pilotos e controladores, e a questão da segurança do espaço aéreo é legítima e permanente.

Fontes e referências

Estrutura oficial chilena

SEFAA — Sección de Estudios de Fenómenos Aéreos Anómalos, Dirección General de Aeronáutica Civil (sefaa.dgac.gob.cl).
Resolução DGAC nº 01599, de 3 de outubro de 1997, que criou o CEFAA.
Resolução Exenta nº 04/3/0113/1385, de 18 de outubro de 2021, que revogou a anterior e renomeou o órgão.
Comisión Chilena para Estudios de Fenómenos Espaciales No Identificados, criada em 9 de julho de 1968.

Caso da Marinha do Chile, 2014

Vídeo divulgado pelo CEFAA em janeiro de 2017, registrado em 11 de novembro de 2014 por câmera infravermelha Wescam.
Análise do GEIPAN/IPACO, rejeitada pelo comitê chileno.
Análise de Mick West e colaboradores no Metabunk: "Explained: Chilean Navy 'UFO' video — Aerodynamic Contrails, Flight IB6830".
Análise divergente de Robert Powell sobre os ângulos de câmera.
Documentação reunida pelo The Black Vault sobre o incidente.

Esqueleto de La Noria (Ata)

Estudo de Nolan, Butte e colaboradores publicado na revista Genome Research, 2018.
Crítica de Cristina Dorador, Universidade de Antofagasta, publicada na revista chilena Etilmercurio.
Manifestação da Sociedade Chilena de Antropologia Biológica.
Análise crítica liderada pela Universidade de Otago, com Siân Halcrow e Kristina Killgrove.
Cobertura de Carl Zimmer no The New York Times sobre a reação chilena ao estudo.

Observatórios

ALMA — Atacama Large Millimeter/submillimeter Array, planalto de Chajnantor.
VLT — Very Large Telescope, Cerro Paranal, Observatório Europeu do Sul.

Nota Editorial

Este artigo é baseado em relatos documentados, investigações oficiais, depoimentos de testemunhas e fontes acadêmicas e jornalísticas verificáveis, listadas ao final do texto.

O Casos Ufológicos não afirma nem nega a existência de vida extraterrestre ou de tecnologia de origem não humana. Nossa missão é apresentar o que está documentado e deixar que você forme sua própria conclusão.

Erros, omissões ou sugestões: contato@casosufologicos.com.br

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