Projeto Blue Book: Os 12.618 Casos, os 701 Sem Explicação e o Memorando que Antecipou a Conclusão
Durante dezessete anos, o governo dos Estados Unidos manteve um escritório com endereço, orçamento e telefone dedicado a investigar relatos de objetos voadores não identificados.
Ele se chamava Projeto Blue Book, funcionava na Base Aérea de Wright-Patterson, em Ohio, e encerrou suas atividades em dezembro de 1969 com um saldo preciso: 12.618 relatos investigados, dos quais 701 permaneceram classificados como não identificados.
Os arquivos estão digitalizados e disponíveis para consulta pública.
Essa acessibilidade cria uma oportunidade rara: dá para verificar, documento por documento, tanto as afirmações do governo quanto as afirmações de quem o critica.
E o resultado é menos confortável para os dois lados do que se costuma supor.
O que veio antes: Sign e Grudge
O Blue Book foi o terceiro programa da Força Aérea sobre o assunto, e herdou estrutura, pessoal e método dos anteriores.
Projeto Sign — estabelecido em 22 de janeiro de 1948, em Wright-Patterson, em resposta à onda de avistamentos iniciada com o relato de Kenneth Arnold, em junho de 1947. Seu relatório final, de fevereiro de 1949, registrou uma posição de indefinição honesta: não havia evidência definitiva capaz de provar ou refutar a existência daqueles objetos como aeronaves de configuração desconhecida.
Projeto Grudge — a ordem que renomeou o Sign foi emitida em 11 de fevereiro de 1949. Seu relatório de agosto daquele ano, o Technical Report nº 102-AC-49/15-100, analisou 244 casos, atribuiu os avistamentos a erro de interpretação, histeria branda, fraude e condições psicopatológicas — e recomendou reduzir o escopo das investigações, porque a atenção oficial estimularia mais relatos.
Ruppelt e a reorganização de 1952

No fim de 1951, incidentes de radar em Fort Monmouth, em Nova Jersey, expuseram o problema estrutural do Grudge: um projeto desenhado para arquivar não tinha como avaliar um caso que exigisse avaliação.
O programa foi reorganizado e, em março de 1952, renomeado Projeto Blue Book, sob comando do capitão Edward J. Ruppelt.
Ruppelt trouxe mudanças concretas e verificáveis:
- Padronização do relato por meio do formulário Air Force Form 117, que estruturava a coleta de dados de cada caso
- Exigência de relatórios meteorológicos, dados de radar e depoimentos detalhados
- Consulta sistemática a especialistas
- Popularização do termo UFO — unidentified flying object —, amplamente creditado a ele, em substituição a "disco voador", expressão que considerava limitadora e portadora de carga ridicularizante
O verão de 1952 e o Painel Robertson
Julho de 1952 foi o mês mais intenso da história do programa.
Em dois fins de semana, retornos de radar não identificados apareceram simultaneamente em dois conjuntos de radar do Aeroporto Nacional de Washington — o centro de controle de tráfego e a torre — e na Base Aérea de Andrews, acompanhados de avistamentos visuais por pilotos. Caças foram acionados.
A repercussão levou a Força Aérea a realizar, em 29 de julho, o que foi descrito como sua maior entrevista coletiva desde a Segunda Guerra Mundial. A explicação oferecida foi inversão térmica — condição atmosférica capaz de produzir retornos falsos de radar.
Vários operadores de radar rejeitaram publicamente essa explicação.
A entrada da CIA
O que motivou a Agência Central de Inteligência não foi a possibilidade de origem extraterrestre. Foi um risco de comunicação.
A preocupação registrada era que, num cenário de ataque soviético real, os canais militares de comunicação ficassem saturados por relatos de OVNIs feitos por civis, mascarando informação genuína — e que o fenômeno pudesse ser explorado para induzir pânico.
Em janeiro de 1953, a CIA convocou o Painel Robertson, presidido pelo físico H. P. Robertson.
A recomendação foi despir o fenômeno de sua aura de mistério e de seu status especial. Para isso, o relatório sugeriu o uso de meios de comunicação de massa, psicólogos, especialistas em publicidade e astrônomos amadores — mencionando nominalmente a Walt Disney Inc. como possível produtora de material educativo.
O objetivo declarado era treinar o público a identificar corretamente o que via no céu. O efeito prático, apontado por críticos desde então, foi consolidar a ridicularização do tema.
Os números
O Blue Book operou de março de 1952 a dezembro de 1969.
| Dado | Valor |
|---|---|
| Total de relatos investigados | 12.618 |
| Casos com explicação convencional | 11.917 |
| Casos classificados como não identificados | 701 |
| Proporção não identificada | Cerca de 5,6% |
| Consultor científico | Dr. J. Allen Hynek |
| Sede | Base Aérea Wright-Patterson, Ohio |
| Encerramento | 17 de dezembro de 1969 |
As explicações convencionais mais frequentes: balões de grande altitude, satélites, estrelas e planetas brilhantes, aeronaves convencionais, miragens e inversões térmicas.
E uma categoria que só se tornou pública décadas depois: aeronaves de reconhecimento americanas classificadas, como o U-2, cuja existência era desconhecida do público na época. Parte dos relatos do período foi produzida por aviões dos próprios Estados Unidos.
Lubbock Lights, 1951: o caso que Ruppelt disse ter resolvido
Entre agosto e setembro de 1951, moradores de Lubbock, no Texas — incluindo professores universitários da Texas Tech — relataram formações de luzes cruzando o céu noturno.
O caso é sempre apresentado como um mistério não resolvido em que a Força Aérea ofereceu uma explicação ridícula. A história documentada é mais complicada, e mais interessante.
A explicação das aves
Ruppelt viajou a Lubbock e entrevistou testemunhas. Sua conclusão inicial: os professores haviam visto tarambolas, aves migratórias, refletindo os novos postes de vapor que a cidade instalara em 1951.
Testemunhas que apoiaram a hipótese: T. E. Snider, agricultor local, observou em 31 de agosto aves sobrevoando um cinema drive-in, com a parte inferior do corpo refletindo a iluminação. Joe Bryant e sua esposa, em 25 de agosto, viram um grupo de luzes circular sua casa — e as identificaram como tarambolas pela aparência e pelo som.
Testemunhas que a refutaram: J. C. Cross, chefe do departamento de biologia da Texas Tech, descartou a possibilidade. Um fiscal federal de caça entrevistado por Ruppelt apontou que tarambolas voam a cerca de 80 km/h, em grupos muito menores do que os relatados, e não eram comuns na região naquela época do ano.
E, em 1959, Hynek contatou um dos professores e soube que ele próprio havia concluído, após pesquisa cuidadosa, que estivera observando tarambolas.
A reviravolta
As fotografias

Carl Hart Jr., estudante local, fotografou as luzes. As imagens foram analisadas pelo laboratório de física de Wright-Patterson.
Ruppelt declarou por escrito à imprensa que as fotos nunca foram provadas como fraude, nem provadas como genuínas.
E há um detalhe que enfraquece seu valor probatório: os professores afirmaram que as fotografias não correspondiam ao que haviam observado. As luzes que eles viram voavam em formação de "u"; as das fotos, em "v".
Socorro, 1964: o caso mais bem documentado
Em 24 de abril de 1964, o policial Lonnie Zamora perseguia um veículo em excesso de velocidade nos arredores de Socorro, no Novo México, quando ouviu um estrondo e viu chamas ao longe.
Ao investigar, relatou ter encontrado um objeto de formato ovalado pousado em uma ravina, com duas figuras pequenas em trajes brancos ao lado. O objeto teria decolado com ruído intenso.
Zamora acionou a polícia estadual. No local foram documentadas marcas de queimadura na vegetação e depressões no solo compatíveis com apoios.
Hynek investigou pessoalmente e passou a considerar o episódio um dos mais consistentes de sua carreira. O Blue Book classificou o caso como não identificado — e ele permanece assim no arquivo.
O Relatório Condon e o Memorando Low
Chegamos ao documento que encerrou o programa — e ao documento que o antecipou.
O contrato
Em 1966, sob pressão pública após episódios mal recebidos — incluindo a explicação de "gás de pântano" para uma onda de avistamentos em Michigan —, a Força Aérea decidiu contratar um estudo acadêmico independente.
Não foi fácil. Diversas instituições de prestígio, incluindo o MIT, recusaram o contrato antes que a Universidade do Colorado aceitasse, sob direção do físico Edward U. Condon.
O memorando
Em 9 de agosto de 1966 — antes da aceitação formal do contrato e mais de dois anos antes da publicação do relatório —, o coordenador do projeto, Robert J. Low, escreveu um memorando interno sobre como o trabalho deveria ser conduzido.
O documento vazou durante o projeto e provocou uma crise interna, com demissões na equipe.
Isso não é interpretação de ufólogo. É o coordenador do estudo, por escrito, descrevendo como produzir a aparência de objetividade — dois anos antes do resultado.
O relatório
O estudo Scientific Study of Unidentified Flying Objects foi publicado em 1968. O comitê examinou cerca de 90 casos em profundidade.
Seu resumo concluiu que nada de valor científico havia sido obtido nas investigações de OVNIs e recomendou o encerramento das investigações governamentais.
A crítica formal
E aqui está o elemento que dá peso institucional à contestação.
O Subcomitê do American Institute of Aeronautics and Astronautics — a principal sociedade profissional de engenharia aeroespacial dos Estados Unidos — analisou o relatório e classificou sua conclusão como opinião pessoal de Condon, e não como resultado do estudo.
E acrescentou que a conclusão oposta poderia ter sido tirada do próprio conteúdo: um fenômeno com uma proporção tão alta de casos inexplicados — cerca de 30% — deveria despertar curiosidade científica suficiente para justificar a continuidade do estudo.
O encerramento — e o memorando Bolender
Munida da recomendação do Relatório Condon, a Força Aérea encerrou o Blue Book em 17 de dezembro de 1969.
A justificativa oficial teve três pontos: os objetos relatados não representavam ameaça à segurança nacional, não demonstravam tecnologia além do conhecimento científico da época e não forneciam evidência de veículos extraterrestres.
Mas existe um documento anterior ao encerramento que complica esse quadro.
Este é o argumento mais sólido de quem sustenta que o Blue Book não era o centro real da questão. E ele é forte porque não depende de interpretação — está escrito no memorando.
Vale, contudo, precisar o que o documento afirma e o que não afirma.
Afirma: que existia um canal paralelo para relatos de relevância militar.
Não afirma: que o Blue Book fosse uma fachada deliberada, que houvesse ocultação de evidência de tecnologia não humana, ou o que esses outros canais concluíram.
A distinção importa. O memorando Bolender é uma evidência real de que o encerramento do Blue Book não encerrou o tratamento militar do assunto. Ele não é evidência de acobertamento de descobertas.
O que os arquivos provam — e o que não provam
Provam
Que o governo dos Estados Unidos manteve, por dezessete anos, um programa oficial de investigação; que processou 12.618 relatos; que 701 permaneceram sem identificação; que empregou um consultor científico acadêmico ao longo de todo o período; que a CIA convocou um painel em 1953 recomendando reduzir o interesse público pelo tema; que o coordenador do estudo que motivou o encerramento escreveu previamente como fazê-lo parecer objetivo; e que existia, em 1969, um canal separado para relatos com implicação de segurança nacional.
Não provam
Que qualquer dos 701 casos envolvesse tecnologia desconhecida ou origem não humana. Que houvesse recuperação de artefatos. Que os canais paralelos tenham chegado a conclusões diferentes das públicas. Que existisse um programa oculto de estudo de naves.
E hoje?
É tentador traçar um paralelo direto entre o Blue Book e a estrutura atual — a AARO, as audiências no Congresso, as divulgações de arquivos.
Há semelhanças reais: a existência de um escritório com mandato público, a tensão entre transparência e segurança operacional, o resíduo persistente de casos não resolvidos.
Mas convém não afirmar mais do que se sabe. Dizer que "o governo está fazendo exatamente o mesmo, fingindo começar agora e apagando o passado" é uma afirmação sobre intenção — e a documentação pública atual, que referencia explicitamente os programas históricos, não a sustenta.
O paralelo defensável é outro, e é metodológico: em 1969 como hoje, o problema central não é a existência de relatos. É a qualidade dos dados coletados.
O Blue Book fechou com 701 casos não resolvidos em grande parte porque operava com testemunho visual, sem instrumentação padronizada e sem retenção sistemática de dados de sensor.
Meio século depois, esse continua sendo o gargalo.
Conclusão
O Projeto Blue Book não foi nem o esforço científico sério que a Força Aérea alegou, nem a fachada cínica que boa parte da ufologia descreve.
Foi as duas coisas, em períodos diferentes e sob comandos diferentes.
Sob Ruppelt, entre 1952 e 1953, houve padronização de relato, consulta a especialistas e disposição real de investigar. Depois, o programa perdeu recursos, prioridade e pessoal qualificado, e passou a funcionar majoritariamente como canal de triagem e resposta ao público.
E encerrou com base em um estudo cujo coordenador havia escrito, dois anos antes, como fazê-lo parecer objetivo — enquanto um memorando interno confirmava que os casos militarmente relevantes já corriam por outro caminho.
Fontes e referências
Arquivos primários
National Archives and Records Administration (NARA) — registros do Project Blue Book, incluindo a documentação incorporada dos projetos Sign e Grudge.
The Black Vault — acervo digitalizado dos microfilmes do Blue Book, resultado de trabalho de desclassificação conduzido pelo pesquisador John Greenewald Jr. Permite consulta caso a caso.
Documentos citados
Relatório do Painel Robertson, CIA, janeiro de 1953. Disponível na sala de leitura FOIA da própria agência.
Scientific Study of Unidentified Flying Objects — Relatório Condon, Universidade do Colorado, 1968.
Memorando de Robert J. Low, 9 de agosto de 1966.
Memorando do general de brigada Carroll Bolender, outubro de 1969.
Avaliação do Subcomitê do American Institute of Aeronautics and Astronautics sobre o Relatório Condon.
Fonte testemunhal
Ruppelt, Edward J. — The Report on Unidentified Flying Objects, 1956. Relato interno do primeiro diretor do Blue Book. Deve ser lido considerando que o autor escreve sobre o programa que dirigiu e sobre os que o antecederam.
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