Ficha Técnica: UAP Água-Viva
Apelidos: Jellyfish UAP, Monstro de Espaguete (Spaghetti Monster).
Data do Avistamento: incerta. Jeremy Corbell data o vídeo de outubro de 2018; o ex-fuzileiro naval Michael Cincoski afirma que o objeto foi avistado no fim de 2017.
Localização: instalação militar conjunta dos EUA no Iraque, frequentemente associada à Base Aérea de Al-Asad e aos arredores dos lagos Habbaniyah e Qadisiyah. A localização exata não foi confirmada oficialmente.
Equipamento de Captura: câmera termográfica FLIR (Forward Looking Infrared) montada em um aeróstato militar de vigilância, segundo o depoimento de Cincoski.
Responsável pelo Vazamento: Jeremy Corbell, documentarista, em janeiro de 2024.
Introdução: Um Formato Fora do Padrão
Poucos episódios recentes da ufologia provocaram, ao mesmo tempo, tanto entusiasmo e tanto ceticismo quanto o vazamento do vídeo do chamado "UAP Água-Viva" (Jellyfish UAP, no original em inglês).
Desde dezembro de 2017, quando o New York Times publicou os primeiros vídeos da Marinha dos Estados Unidos que mais tarde ficariam conhecidos como FLIR e GIMBAL — o terceiro, GOFAST, veio a público em 2018 —, o interesse por novas imagens de Fenômenos Anômalos Não Identificados (UAP, na sigla em inglês) só cresceu. Em 9 de janeiro de 2024, o documentarista Jeremy Corbell divulgou um novo registro em sua conta no X e na série TMZ Presents: UFO Revolution: um objeto de forma estranha atravessando o céu sobre uma base americana no Iraque.
O formato chamou atenção de imediato. Não lembrava os discos voadores clássicos, os triângulos negros da onda belga do fim dos anos 1980 nem os "Tic-Tacs" brancos dos vídeos da Marinha. O objeto parecia ter um corpo arredondado na parte de cima e várias hastes penduradas embaixo, sem asas, rotores, saídas de exaustão ou superfícies de controle visíveis.
Dois dias depois, Corbell divulgou outra imagem, a de um objeto que chamou de "Chandelier" (Lustre), registrado sobre o Golfo Pérsico. Os dois casos costumam ser confundidos, mas são registros diferentes.
Este artigo examina o que se sabe sobre o vídeo do Água-Viva, o contexto militar em que teria sido gravado, as alegações feitas sobre ele e as explicações convencionais propostas por analistas céticos. E procura separar uma coisa da outra.
O Cenário: A Base no Iraque e o "Fantasma" de Al-Asad
O vídeo teria sido gravado em uma base de operações conjuntas dos Estados Unidos no Iraque. Em zonas de conflito no Oriente Médio, o espaço aéreo sobre bases militares está entre os mais vigiados do mundo. A ameaça de drones comerciais adaptados, foguetes de curto alcance e artilharia obriga as forças da coalizão a manter vigilância constante sobre o céu ao redor.
Essa vigilância costuma incluir aeróstatos, grandes balões cativos presos à base por cabos e equipados com sensores ópticos e câmeras infravermelhas. Do alto, essas câmeras conseguem acompanhar assinaturas de calor a quilômetros de distância, dia e noite.
Um personagem importante na história é Michael Cincoski, ex-fuzileiro naval americano que trabalhava como controlador tático de inteligência, vigilância e reconhecimento na base em 2018. Em entrevistas à rede NewsNation, Cincoski contou que, ao chegar à base, viu o vídeo completo, e que ninguém sabia muito bem o que pensar dele. Segundo ele, a gravação foi feita pela câmera de um aeróstato que vigiava a base.
Cincoski disse que o objeto acabou virando uma espécie de "história de fantasma" da base. Também contou que, entre os militares, ele nunca foi chamado de "água-viva": o apelido era "Monstro de Espaguete", por causa das hastes penduradas. E afirmou que o objeto não parecia ameaçar ninguém.
O depoimento de Cincoski ajuda a dar credibilidade à origem militar do vídeo. Mas ele não endossa tudo o que foi dito depois. Como se verá adiante, o ex-fuzileiro contestou diretamente as alegações mais extraordinárias feitas por Corbell.
Anatomia do Objeto: O Formato e a Ausência de Propulsão

Nas imagens, a parte superior do objeto parece um corpo bulboso, arredondado, que lembra o sino de uma água-viva. Dele descem várias hastes de comprimentos diferentes, como pernas ou tentáculos.
O detalhe que mais intrigou quem assistiu ao vídeo é que essas hastes parecem não se mover. Ao longo de toda a gravação, o objeto se desloca em velocidade aparentemente constante, e os "tentáculos" permanecem na mesma posição em relação ao corpo principal. Para os defensores da hipótese anômala, isso indicaria uma estrutura rígida, e não algo frágil levado pelo vento.
Também não há sinais visíveis de propulsão. Em imagens infravermelhas, turbinas, motores e exaustores costumam aparecer como pontos concentrados de calor. No vídeo do Água-Viva, não há esteira térmica nem saída de calor perceptível.
Essa ausência pode ser lida de duas formas. Para quem vê no caso uma tecnologia desconhecida, ela sugere um meio de propulsão que não conhecemos. Para os céticos, ela é justamente o que se esperaria de algo sem propulsão nenhuma, como um balão à deriva. O vídeo, sozinho, não permite decidir entre as duas leituras.
A Questão Térmica
Outro ponto muito discutido é a aparência do objeto na câmera térmica. Câmeras FLIR militares têm modos de exibição com polaridade invertida: no modo "White Hot", o que está mais quente aparece em branco; no modo "Black Hot", em preto.
Durante o vídeo, o objeto passa de escuro para cinza e para claro. Corbell interpretou essas variações como mudanças de temperatura do próprio objeto. Analistas céticos, como Mick West, apontaram um problema nessa leitura: quando o objeto escurece, o fundo da imagem também escurece. Isso indica uma mudança na configuração da câmera — seja a troca de polaridade feita pelo operador, seja o controle automático de ganho, que recalibra o contraste conforme a diferença de calor entre o solo e o céu —, e não uma alteração no próprio objeto.
Corbell também afirmou, com base em pessoas que diz conhecer a gravação completa ou ter testemunhado o evento, que o objeto não era visível com óculos de visão noturna, que parecia interferir na capacidade de mira da plataforma óptica e que se sustentava no ar sem meios aparentes de sustentação ou propulsão. Essas alegações não vieram acompanhadas de documentos ou dados de sensores que permitam verificá-las.
A partir delas, parte da comunidade ufológica passou a especular sobre metamateriais ou sistemas de camuflagem ativa. São hipóteses que dependem de premissas ainda não confirmadas.
Voo Transmídia: Do Ar Para a Água
Entre as características que Luis Elizondo, ex-funcionário do Pentágono que afirma ter dirigido o programa AATIP, popularizou como os "Cinco Observáveis" dos UAPs está a chamada viagem transmídia: a capacidade de um objeto passar do ar para a água, ou para o espaço, sem perda aparente de desempenho.
No caso do Água-Viva, Corbell afirmou publicamente que o objeto demonstrou essa capacidade. Segundo ele, depois de atravessar a área da base, o objeto teria iniciado uma descida controlada sobre um corpo d'água próximo, permanecido submerso por 17 minutos e depois saído da água em alta velocidade. Corbell diz que existe uma versão estendida do vídeo, com cerca de 30 minutos, que mostraria esse trecho.
É preciso ser claro sobre esse ponto: o vídeo divulgado não mostra nada disso. A gravação termina antes de qualquer contato com a água, e a versão estendida nunca foi apresentada ao público.
Michael Cincoski, a única testemunha identificada que diz ter visto o vídeo completo na base, contestou essa parte da história de forma direta. Segundo ele, no fim da gravação o objeto simplesmente segue para longe e vai ficando cada vez menor. Em nenhum momento, afirmou, é possível vê-lo cair no lago ou disparar para o céu. Para Cincoski, isso nunca aconteceu.
O Contraponto Cético: Balões, Sujeira e Ilusões de Ótica
Em investigação séria, a hipótese de uma tecnologia desconhecida só deve ganhar força depois que as explicações convencionais forem examinadas e descartadas. No caso do Água-Viva, analistas céticos, com destaque para Mick West e a comunidade do fórum Metabunk, apresentaram algumas linhas principais.
A hipótese do balão. A explicação mais citada é que o objeto seria um balão de festa ou um conjunto de balões metalizados flutuando à deriva. West e outros analistas apontaram semelhanças entre a silhueta e balões vendidos no comércio com formato de personagens, que têm "pernas" penduradas. Segundo a análise de West, o objeto parece se mover aproximadamente na velocidade do vento, o que seria um forte indício de algo levado pelo ar, e não de uma aeronave. Os defensores da hipótese anômala respondem que as hastes parecem rígidas demais para balões soltos ao vento.
A hipótese da sujeira na lente. Outra possibilidade levantada é que o objeto não estivesse no céu, mas grudado na cúpula transparente que protege a câmera — um inseto, sujeira ou outro detrito. Nesse caso, o movimento aparente seria uma ilusão criada pelo giro e pela inclinação da câmera. Essa hipótese, porém, também tem contestação: o físico Matthew Szydagis, professor da Universidade de Albany, considerou improvável que se trate de sujeira e avaliou que o vídeo parece mostrar um objeto físico, e não um artefato da câmera.
A questão do paralaxe. Parte da análise cética também chama atenção para o efeito de paralaxe. Quando uma câmera em movimento acompanha um alvo, objetos próximos e distantes parecem se deslocar em velocidades diferentes. Isso torna difícil, apenas pelo vídeo, estimar com segurança a distância, o tamanho e a velocidade real do objeto. Szydagis concorda nesse ponto: segundo ele, imagens de outros ângulos e mais contexto sobre o evento seriam necessários para determinar tamanho e velocidade.
Nenhuma dessas hipóteses foi confirmada de forma definitiva. Mas a do balão, em particular, explica as características visíveis do vídeo sem exigir tecnologia desconhecida, o que a torna, metodologicamente, o ponto de partida.
Hipóteses Especulativas em Circulação
No extremo oposto, o caso também alimentou especulações bem mais ousadas, que circulam em fóruns, podcasts e canais ufológicos. Nenhuma delas tem respaldo em dados verificáveis, mas vale conhecê-las, porque ajudam a entender por que o vídeo ganhou tanta repercussão.
Camuflagem por plasma. Alguns comentaristas sugerem que o objeto estaria envolto em uma camada de plasma capaz de absorver ondas de radar e ocultá-lo da luz visível. A assinatura térmica registrada seria um subproduto desse sistema. Não há qualquer medição que sustente a ideia.
Sondas biomecânicas. O aspecto orgânico do objeto inspirou a hipótese de que inteligências não humanas usariam organismos produzidos por bioengenharia, e não máquinas de metal. O Água-Viva seria, nessa visão, uma espécie de sonda viva. É uma ideia sem base empírica.
Formas de vida atmosféricas. Uma vertente antiga da ufologia, associada a autores como Trevor James Constable, que nos anos 1950 e 1960 fotografou o que chamava de "criaturas" atmosféricas no infravermelho, sugere que existiriam formas de vida desconhecidas vivendo na atmosfera. O Água-Viva seria um animal, e não uma nave. A existência desses organismos nunca foi demonstrada.
Projeções de outras dimensões. Inspirada nas ideias de Jacques Vallée, que há décadas questiona a hipótese extraterrestre clássica, há ainda quem sugira que o formato estranho seria a "sombra" de algo que existe em mais dimensões do que as que percebemos. É uma especulação filosófica, não uma hipótese testável.
O Pentágono e os Arquivos Oficiais
Quando o vídeo veio a público, em janeiro de 2024, o Pentágono preferiu não comentar e não confirmou a autenticidade da gravação. Uma porta-voz do AARO (All-domain Anomaly Resolution Office), escritório do Pentágono responsável por investigar esses casos, disse apenas que o órgão divulgaria atualizações em seu site à medida que resolvesse casos de UAP, incluindo imagens, quando sua liberação fosse aprovada.
Desde maio de 2026, o governo americano passou a publicar registros desclassificados sobre UAPs no portal WAR.GOV/UFO, dentro do programa PURSUE (Presidential Unsealing and Reporting System for UAP Encounters). Em julho de 2026, um dos lotes trouxe um vídeo infravermelho de um objeto escuro, também comparado a uma água-viva e apelidado nas redes de "cérebro flutuante". Esse vídeo, porém, é de outro caso: foi gravado sobre o Oceano Atlântico em janeiro de 2020, e não sobre o Iraque.
Até a publicação deste artigo, o vídeo do Água-Viva do Iraque não constava entre os registros oficialmente divulgados.
Conclusão: O que o Caso Água-Viva Realmente Mostra
O UAP Água-Viva pode ser um objeto de natureza desconhecida, um drone de outro país testando as defesas americanas, um balão perdido no deserto ou uma ilusão criada pela própria câmera. Com as informações disponíveis hoje, não é possível dizer qual dessas hipóteses é a correta.
O que se pode afirmar é mais modesto. Há um vídeo de origem militar, cuja circulação interna foi confirmada por pelo menos uma testemunha que diz ter estado na base. Há um objeto que não foi identificado publicamente. E há um conjunto de alegações extraordinárias — o mergulho de 17 minutos no lago, a invisibilidade aos óculos de visão noturna, a saída em alta velocidade — que até agora não foram acompanhadas de evidências verificáveis e que foram contestadas pela própria testemunha militar do caso.
O caso também mostra algo sobre o momento atual do debate. O vídeo não foi liberado por um processo oficial de transparência, mas vazado por um documentarista, e grande parte do que se diz sobre ele depende de fontes anônimas. Isso não significa que as alegações sejam falsas. Significa que ainda não podem ser tratadas como fatos.
Enquanto o governo americano não divulgar a gravação completa, dados de radar ou uma análise oficial, o Água-Viva continuará onde está: entre um vídeo real e uma explicação que ninguém apresentou.
Fontes de Referência para Estudo
Para quem quiser se aprofundar no caso, estas são as principais referências e mídias:
"TMZ Presents: UFO Revolution" (2024): série documental em três partes que apresentou o vídeo vazado por Jeremy Corbell e o contextualizou ao lado das audiências sobre UAPs no Congresso americano.
Jeremy Corbell no YouTube e no X (antigo Twitter): canais em que o documentarista divulgou o vídeo, em 9 de janeiro de 2024, e suas interpretações sobre ele.
Weaponized Podcast: apresentado por George Knapp e Jeremy Corbell. Os episódios de janeiro e fevereiro de 2024 tratam da cronologia do caso.
NewsNation (janeiro de 2024): entrevistas com o ex-fuzileiro Michael Cincoski, com o físico Matthew Szydagis e cobertura da resposta do Pentágono.
Mick West e a comunidade Metabunk: o principal contraponto cético, com análises sobre a hipótese de balão e sobre as variações de contraste na câmera térmica.
WAR.GOV/UFO (2026): portal do programa PURSUE, com registros desclassificados de casos de UAP não resolvidos.