Foo Fighters: As Esferas Luminosas da Segunda Guerra e o Relatório que Subiu até o Comando Aliado
Na noite de 23 de novembro de 1944, um caça noturno Bristol Beaufighter sobrevoava o Reno, cerca de trinta quilômetros ao norte de Estrasburgo.
A bordo iam três homens: o tenente Edward Schlueter, piloto; o tenente Donald J. Meiers, operador de radar; e o tenente Fred Ringwald, oficial de inteligência do esquadrão.
Foi Ringwald quem viu primeiro.
Uma fileira de oito a dez luzes alaranjadas, à distância, aparentemente em formação.
Meiers checou o radar de bordo. Nada. Consultaram o radar em solo. Nada. Schlueter virou a aeronave na direção das luzes, que desapareceram — e reapareceram minutos depois, mais distantes.
Nas semanas seguintes, outros pilotos do mesmo esquadrão relatariam encontros parecidos. Em janeiro de 1945, um relatório formal com catorze incidentes havia subido pela cadeia de comando até o Quartel-General Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas, em Paris.
O fenômeno recebeu um nome que veio de uma tira de quadrinhos e que precisou ser higienizado por um repórter da Associated Press antes de virar notícia.
Este artigo reconstrói o que a documentação militar registra — e corrige uma afirmação que circula amplamente em textos sobre o assunto e que alimenta uma das mitologias mais problemáticas da ufologia.
O contexto: um céu cheio de tecnologia nova
A Segunda Guerra Mundial foi, entre outras coisas, um laboratório da tecnologia humana em seu extremo. Aviões a jato, foguetes de longo alcance, radar, bomba atômica. A guerra comprimiu décadas de desenvolvimento em poucos anos.
Nesse ambiente, qualquer fenômeno aéreo desconhecido tinha uma explicação padrão à mão: era coisa do inimigo.
E não era paranoia. Os alemães já haviam colocado em operação as bombas voadoras V-1, os foguetes V-2 e o Messerschmitt Me 262, o primeiro caça a jato operacional da história. Suspeitar de uma arma secreta nova era a hipótese profissional correta.
Foi exatamente o que a inteligência aliada fez.
O 415º Esquadrão de Caça Noturna
Os relatos que deram nome ao fenômeno vieram do 415º Esquadrão de Caça Noturna da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, baseado em Dijon, na França.
O esquadrão operava sobre o vale do Reno, então ocupado pelos alemães, em missões noturnas de caça e reconhecimento — o tipo de operação em que a tripulação passa horas escrutinando um céu escuro em busca de luzes.
Suas aeronaves eram os Bristol Beaufighter e, posteriormente, os Northrop P-61 Black Widow.
O que os relatos descreviam
As descrições apresentam elementos recorrentes:
- Esferas ou bolas luminosas — laranja, vermelhas, brancas
- Às vezes isoladas, às vezes em grupos ou aparente formação
- Silenciosas
- Aparentemente capazes de acompanhar a aeronave mantendo posição relativa
- Ausentes do radar de bordo e do radar em solo
- Desaparecendo abruptamente
- Nunca hostis — não há relato de foo fighter atacando aeronave
Um caso adicional documentado: em 22 de dezembro de 1944, os tenentes David McFalls e Edward Baker relataram avistamento a 10.000 pés de altitude, ao sul de Haguenau.
De onde veio o nome
A origem é documentada e melhor do que a versão resumida que costuma circular.
Num debriefing de missão, em 27 de novembro de 1944, Meiers chegou visivelmente alterado. Trazia no bolso traseiro uma cópia da tira em quadrinhos Smokey Stover, protagonizada por um bombeiro e conhecida pelo bordão sem sentido "where there's foo, there's fire" — onde há foo, há fogo.
Meiers sacou a tira, bateu com ela na mesa de Ringwald, disse que era mais um daqueles malditos foo fighters — com um adjetivo consideravelmente mais forte — e saiu da sala.
Segundo Ringwald, o nome pegou por falta de coisa melhor. O termo em uso entre os homens do 415º era, literalmente, "fuckin' foo fighters".
Em dezembro de 1944, o correspondente da Associated Press em Paris, Bob Wilson, foi enviado à base do esquadrão para apurar a história. Foi nesse momento que a expressão foi limpa para simplesmente "foo fighters" — a forma que entraria nos jornais, nos relatórios e, décadas depois, no nome de uma banda de rock.
A cadeia de comando: como o caso subiu
Este é o aspecto mais concreto de toda a história, e o mais raramente contado.
O fenômeno não ficou em conversa de piloto. Ele percorreu formalmente a estrutura militar aliada.
Etapa 1. O capitão Fred "Fritz" Ringwald, oficial de inteligência S-2 do 415º Esquadrão, compilou um relatório listando catorze incidentes distintos, ocorridos em dezembro de 1944 e início de janeiro de 1945.
Etapa 2. A 64ª Ala de Caça, escalão imediatamente superior, não conseguiu oferecer explicação.
Etapa 3. O relatório foi encaminhado ao XII Comando Aéreo Tático.
Etapa 4. Sem resposta própria, o XII TAC solicitou auxílio ao escalão máximo do teatro europeu: o SHAEF, o Quartel-General Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas, em Paris.
Há registro ainda de que o físico Luis Alvarez — que receberia o Nobel de Física em 1968 — examinou relatos do fenômeno.
E existe um documento contemporâneo que fecha o quadro: em 13 de dezembro de 1944, o SHAEF emitiu comunicado à imprensa descrevendo o fenômeno como uma "nova arma alemã".
O mito dos discos nazistas — e por que ele não se sustenta
Aqui é preciso corrigir uma afirmação que aparece com frequência em artigos sobre foo fighters, inclusive em textos sérios.
A afirmação é a seguinte: após a rendição alemã, os Aliados teriam inspecionado laboratórios do Terceiro Reich e encontrado, entre outros materiais, projetos de discos voadores em desenvolvimento.
Isso não aconteceu.
Nenhum projeto de disco alemão foi encontrado por forças aliadas em 1945.
De onde as alegações realmente vêm
As histórias sobre discos voadores nazistas surgiram no início dos anos 1950 — anos após o fim da guerra —, como declarações de indivíduos, sem documentação contemporânea que as sustentasse.
O caso mais citado é o do engenheiro alemão Georg Klein, que em 1953 afirmou terem sido desenvolvidos dois tipos de disco:
- Um disco não rotativo, desenvolvido em Breslau pelo engenheiro de foguetes V-2 Richard Miethe
- Um disco com anel de pás de turbina em torno de uma cabine fixa, desenvolvido em Praga por Rudolf Schriever e Klaus Habermohl
Os problemas dessas alegações
Não há evidência de que Klaus Habermohl tenha sequer existido.
Rudolf Schriever afirmou ter trabalhado para a Heinkel como piloto de testes e engenheiro entre 1940 e 1941. Isso nunca foi corroborado.
E há um detalhe que ilustra bem o nível de rigor das alegações: Klein sustentou que o engenheiro teria escapado dos soviéticos em Breslau voando um Messerschmitt Me 163 Komet. O Me 163 era um interceptador movido a foguete com autonomia de poucos minutos de voo propulsado. A fuga descrita seria fisicamente impossível.
As explicações propostas
Nenhuma explicação única cobre todos os relatos. Mas várias hipóteses concretas foram formuladas — algumas ainda durante a guerra.
Pós-imagens de clarões de artilharia antiaérea
Segundo a cobertura da revista Time à época, parte dos cientistas consultados atribuía os avistamentos a uma ilusão provavelmente causada por pós-imagens do ofuscamento produzido por explosões de flak.
A favor: explica precisamente a característica mais citada do fenômeno — uma luz que acompanha a aeronave mantendo posição relativa constante. Uma pós-imagem retiniana faz isso por definição: ela acompanha o olho do observador, não um objeto externo. Também explica a ausência no radar, a silenciosidade e o desaparecimento súbito.
Contra: não explica bem relatos de formações com múltiplos objetos, nem casos observados de aeronaves distintas.
Reflexos de luz em cristais de gelo
Hipótese levantada pelo Painel Robertson, em 1953.
A favor: a alta atmosfera noturna em latitudes europeias no inverno é ambiente favorável à formação de cristais de gelo, capazes de produzir reflexos pontuais e móveis.
Contra: difícil conciliar com relatos de movimento coordenado e velocidade.
Fenômenos eletrostáticos
O fogo de santelmo — descarga elétrica que produz luminosidade em superfícies metálicas — foi citado pelo Painel Robertson.
A favor: aeronaves em voo acumulam carga estática, e o fenômeno é real e comum.
Contra: o fogo de santelmo fica aderido à superfície da aeronave. Os relatos descrevem objetos a distância.
Efeito autocinético
Um ponto luminoso isolado, observado num campo escuro sem pontos de referência, aparenta movimento próprio. É um fenômeno perceptivo bem estabelecido em psicologia da percepção.
A favor: aplica-se diretamente a voo noturno, e explica manobras aparentes de um objeto que talvez estivesse parado.
Contra: não explica relatos de aproximação e afastamento nítidos.
Plasma atmosférico
Bolas de plasma são fenômeno natural raro e mal compreendido.
Contra: não se conhece formação de plasma capaz de acompanhar uma aeronave por quilômetros mantendo posição relativa.
Fadiga e estresse de combate
Pilotos noturnos operavam sob privação de sono e tensão extrema, condições em que alucinações visuais são documentadas.
Contra: não explica relatos simultâneos de tripulantes diferentes, na mesma aeronave, descrevendo o mesmo objeto.
O Painel Robertson e a questão do nome
A avaliação oficial mais importante já feita sobre os foo fighters veio depois da guerra.
Em 1953, o Painel Robertson — grupo de cientistas convocado pelo governo americano para avaliar o fenômeno dos discos voadores — citou expressamente os relatos de foo fighters. Registrou que o comportamento observado não parecia ameaçador e listou as hipóteses eletrostática, eletromagnética e de reflexo em cristais de gelo.
E deixou uma observação que vale a citação:
Se o termo "discos voadores" fosse popular entre 1943 e 1945, esses objetos teriam sido assim rotulados.
O painel reconheceu, portanto, que a categoria disponível molda a interpretação.
Em 1944, a categoria disponível era "arma inimiga". Foi assim que o fenômeno foi classificado, investigado e escalado pela cadeia de comando.
Três anos depois, após o avistamento de Kenneth Arnold em 1947, a categoria disponível passou a ser "disco voador". E o mesmo tipo de relato passou a ser lido de outra forma.
O que a documentação sustenta
Documentado
Pilotos do 415º Esquadrão de Caça Noturna relataram, a partir de 23 de novembro de 1944, esferas luminosas sobre o vale do Reno. O oficial de inteligência do esquadrão compilou relatório com catorze incidentes de dezembro de 1944 e início de janeiro de 1945. O relatório subiu da 64ª Ala de Caça ao XII Comando Aéreo Tático e deste ao SHAEF, em Paris. O SHAEF emitiu comunicado à imprensa em 13 de dezembro de 1944 descrevendo o fenômeno como nova arma alemã. O termo "foo fighters" originou-se de uma tira de quadrinhos e foi difundido pela Associated Press. Nenhum objeto foi capturado, fotografado com autenticação ou registrado em radar. Nenhuma aeronave foi atacada. O Painel Robertson analisou os relatos em 1953.
Relatado, sem documentação primária localizada
Que pilotos alemães e japoneses tenham observado o mesmo fenômeno e chegado à conclusão simétrica. A afirmação é amplamente repetida, inclusive por fontes respeitáveis, mas não localizamos documentação alemã ou japonesa de época que a sustente.
Interpretação
Que os foo fighters constituíssem um fenômeno único. Que os objetos "observassem" as aeronaves — o comportamento é descrito por observadores, e atribuir intenção é leitura, não constatação.
Sem sustentação
Que os foo fighters fossem tecnologia alemã. Que fossem tecnologia aliada. Que os Aliados tenham encontrado projetos de discos voadores em 1945. Que houvesse origem não humana.
Conclusão
Os foo fighters não são o caso mais espetacular da história dos fenômenos aéreos não identificados. Não há fotografia, não há radar, não há destroço.
O que existe é outra coisa, e talvez mais valiosa: um registro burocrático completo de como uma instituição militar reagiu a um fenômeno que não conseguiu identificar.
Um esquadrão viu algo. O oficial de inteligência formalizou catorze casos. O escalão superior não soube responder. O comando tático também não. O quartel-general supremo foi acionado. Um comunicado à imprensa foi emitido. Um futuro Nobel de Física examinou os relatos. E, ao fim da guerra, a inspeção dos laboratórios alemães não encontrou nada que correspondesse.
Nenhuma explicação convencional cobre todos os casos. Mas duas delas — pós-imagens de flak e efeito autocinético — atacam de frente o elemento mais impressionante do fenômeno, e não podem ser descartadas.
Os foo fighters permanecem sem identificação definitiva.
Fontes e referências
Documentação militar
Relatório do capitão Fred Ringwald, oficial de inteligência S-2 do 415º Esquadrão de Caça Noturna, listando catorze incidentes de dezembro de 1944 e janeiro de 1945, encaminhado ao XII Comando Aéreo Tático e ao SHAEF.
Comunicado à imprensa do SHAEF, 13 de dezembro de 1944.
Registros do 415º Night Fighter Squadron, United States Army Air Forces, 1944–1945.
Avaliação oficial
Relatório do Painel Robertson, 1953, seção referente aos relatos de foo fighters.
Imprensa contemporânea
Cobertura da Associated Press a partir de dezembro de 1944, por Bob Wilson.
Revista Time, janeiro de 1945.
Bibliografia
Jacobs, David M. — The UFO Controversy in America, 1975.
Lore, Gordon & Deneault, Harold H. — Mysteries of the Skies: UFOs in Perspective, 1968.
Aldrich, Jan — Project 1947, arquivo documental sobre a onda de avistamentos de 1947 e antecedentes.
Sobre as alegações de discos alemães
Declarações de Georg Klein, 1953, e alegações atribuídas a Rudolf Schriever, Richard Miethe e Klaus Habermohl — nenhuma corroborada por documentação contemporânea.