DOW-UAP-PR159: O Filme de Tremonton, 1952 — 70 Segundos que Dividiram a Marinha e a Força Aérea
Em 18 de setembro de 2026, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos publicou a sexta leva de arquivos do programa PURSUE: 75 documentos, vídeos e gravações. Entre eles estava um item que não pertence à era dos sensores infravermelhos e das plataformas militares modernas.
Um filme colorido de 1952.
O registro DOW-UAP-PR159 é a digitalização de uma cópia em 16mm de um filme Kodachrome gravado perto de Tremonton, Utah, na manhã de 2 de julho de 1952. Quem apertou o botão foi Delbert C. Newhouse, suboficial da Marinha dos Estados Unidos e fotógrafo naval de carreira.
Nas sete décadas seguintes, essas imagens foram examinadas pela Força Aérea, pela Marinha, por um painel científico convocado pela CIA e por uma comissão universitária financiada pelo governo. Cada uma chegou a uma resposta diferente.
E o arquivo que o público recebeu agora tem uma peculiaridade que vale examinar antes de qualquer outra coisa.
O arquivo: 70 segundos, e nem todos são de Utah
A descrição oficial avisa que, a partir dos 55 segundos, o filme passa a mostrar imagens não relacionadas — aparentemente uma demonstração de equipamento de costura.
Ao examinar o arquivo divulgado, é possível ser mais preciso.
| Trecho | Conteúdo |
|---|---|
| 00:00 – 00:55 | Céu. Pontos luminosos deslocando-se sobre fundo azul, depois quase preto |
| 00:55 | Corte seco, sem transição |
| 00:55 – 01:03 | Máquina de costura em operação; primeiros planos de linha e agulha |
| 01:03 – 01:06 | Película em branco |
| 01:07 – 01:10 | Cartela preta: End of Recording |
O corte acontece em 55,4 segundos. Não há fusão, cartela ou qualquer marca de separação: uma imagem termina e a outra começa no quadro seguinte.
Na prática, o material de Utah ocupa pouco menos de 80% do arquivo.
Um filme que não é o original
Esse detalhe importa mais do que parece.
A presença de imagens de costura indica que o rolo que sobreviveu é uma composição ou uma cópia reaproveitada — algo comum em acervos de filme, onde trechos eram remontados em rolos de projeção. O próprio documento oficial reconhece que o registro disponível não permite estabelecer como ou quando os materiais foram combinados.
A imagem digitalizada reforça essa leitura. Riscos verticais atravessam o quadro de ponta a ponta durante toda a sequência de céu, e uma faixa escura permanece fixa no centro da imagem. São marcas típicas de uma cópia de projeção usada muitas vezes, não de um negativo original guardado em arquivo.
Há ainda um segundo registro relevante. Segundo os documentos enviados junto com o filme — reunidos na mesma coleção sob a identificação DOW-UAP-D102 —, a filmagem esteve originalmente combinada com imagens de paisagens montanhosas de Idaho, que não foram preservadas nesta digitalização.
2 de julho de 1952
A ocorrência em si está entre as mais bem documentadas da década.
| Campo | Registro |
|---|---|
| Data | 2 de julho de 1952 |
| Horário | Aproximadamente 11h10 (horário das Montanhas) |
| Local | Rodovia estadual 30, cerca de 11 km ao norte de Tremonton, Utah |
| Coordenadas registradas | 41°50' N, 112°10' O |
| Testemunha | Delbert C. Newhouse, suboficial da Marinha dos EUA |
| Câmera | Bell & Howell Automaster, 16mm, teleobjetiva de 3 polegadas |
| Filme | Kodachrome Daylight, câmera na mão, 16 quadros por segundo |
| Objetos relatados | "Cerca de dez ou doze", segundo o depoimento |
Newhouse não era um observador casual. A investigação registrou que ele tinha mais de dezenove anos de serviço, formação na escola de fotografia da Marinha desde 1935 e mais de mil horas de fotografia aérea acumuladas. Estava viajando com a família, a caminho de uma nova designação, quando parou o carro na estrada.
Esse currículo é a razão pela qual o caso foi levado a sério desde o primeiro dia. Também é a razão pela qual ele nunca foi simples de descartar.
O que ficou de fora do filme
Aqui está a limitação central do caso, e ela é reconhecida pelo próprio depoente.
Segundo o relato registrado na investigação, Newhouse observou os objetos antes de conseguir filmar, quando estavam consideravelmente mais próximos. Ele os descreveu como tendo cor de metal e formato de dois pratos, um invertido sobre o outro, e comparou o tamanho aparente ao de bombardeiros B-29 a 3.000 metros.
Quando a câmera finalmente estava pronta, os objetos já haviam se afastado.
O escurecimento aos 25 segundos
Há um detalhe técnico do filme que a descrição oficial não menciona e que vale registrar, porque está no centro da controvérsia posterior.
A investigação anotou que, durante a filmagem, Newhouse fechou o diafragma de f/8 para f/16 para aumentar o contraste entre os objetos e o céu.
Esse ajuste é visível no arquivo divulgado.
Até por volta dos 24 segundos, o céu aparece em azul claro e vários pontos brancos podem ser distinguidos. A partir dos 25 segundos, o fundo escurece de forma abrupta e passa a quase preto, restando dois ou três pontos luminosos isolados. Medindo o brilho médio da área central do quadro, a queda é de aproximadamente cinco vezes, e ocorre entre um quadro e o seguinte.
Fechar dois pontos de diafragma reduz a luz a um quarto. A ordem de grandeza é compatível.
Três análises, três respostas
O filme foi entregue às autoridades e passou por exames sucessivos. O resultado é um dos episódios mais desconfortáveis da história do Projeto Livro Azul: laboratórios oficiais do mesmo governo chegaram a conclusões incompatíveis.
| Quem analisou | Quando | Conclusão registrada |
|---|---|---|
| Laboratório fotográfico da Força Aérea, Wright-Patterson | 1952 | Não conseguiu identificar; descartou aviões e balões |
| Laboratório de interpretação fotográfica da Marinha, Anacostia | 1952 | Objetos seriam veículos sob controle inteligente; não seriam aeronaves nem aves |
| Painel científico convocado pela CIA (Painel Robertson) | Janeiro de 1953 | Sugeriu gaivotas |
| Comissão Condon, Universidade do Colorado | 1968–1969 | Identificação provisória como aves |
A frase atribuída ao laboratório da Força Aérea resume o impasse inicial: não sabiam o que eram, mas não achavam que fossem aviões, balões ou pássaros.
A equipe da Marinha foi além. Realizou um estudo quadro a quadro das variações de brilho e do padrão de movimento e concluiu que a luminosidade dos objetos não podia ser explicada por reflexo solar. Dessa análise saiu a expressão que tornaria o caso famoso: veículos sob controle inteligente.
O Painel Robertson
Entre 14 e 18 de janeiro de 1953, um painel científico convocado pelo Diretor Assistente de Inteligência Científica da CIA se reuniu para avaliar o fenômeno dos objetos voadores não identificados. Presidido pelo físico H. P. Robertson, o grupo incluiu Luis Alvarez, Lloyd Berkner, Samuel Goudsmit e Thornton Page, com J. Allen Hynek como membro associado.
Dois filmes foram exibidos ao painel: o de Tremonton e o de Great Falls, Montana.
O relatório reconhece a qualidade do material de Utah:
"Este caso foi considerado significativo por causa da excelente evidência documental na forma de filmes em Kodachrome (cerca de 1.600 quadros)."
Mas rejeita a interpretação da Marinha. Sobre a alegação de luminosidade própria, o documento argumenta que um objeto semiesférico pode produzir reflexo de luz solar sem "piscar" ao longo de 60 graus de arco.
E registra a explicação que ficaria colada ao caso para sempre:
"Os movimentos aparentes, tamanhos e brilhos dos objetos foram considerados fortemente sugestivos de aves, particularmente depois que o Painel assistiu a um curto filme mostrando a alta refletividade de gaivotas sob sol forte."
O painel recomendou que a Marinha reexaminasse seus próprios cálculos. Esse reexame nunca foi realizado.
O Relatório Condon
Dezesseis anos depois, o estudo da Universidade do Colorado voltou ao filme. O caso aparece no relatório final como Caso 49 e recebeu uma análise técnica detalhada, incluindo a reconstrução da geometria da cena e o comportamento das imagens quadro a quadro.
A conclusão foi cautelosa, e vale lê-la na formulação exata:
"Os objetos estão assim provisoriamente identificados como aves, aguardando qualquer demonstração, por outros investigadores, de que não poderiam ser aves. Não há evidência conclusiva ou probatória de que o caso envolva aeronaves extraordinárias."
Note a estrutura da frase. Não é "são aves". É uma identificação provisória, com o ônus da prova transferido para quem discordar.
Por que a discussão nunca fechou
Três pontos mantiveram o caso vivo.
A discordância entre laboratórios oficiais. Não se trata de ufólogos contra militares. O laboratório da Marinha e o painel da CIA analisaram o mesmo filme e chegaram a respostas opostas sobre a natureza mais básica das imagens.
A parte não filmada. A descrição de objetos metálicos discoides vem do depoimento, não da película. Quem defende a hipótese das gaivotas analisa o filme. Quem a rejeita costuma apoiar-se no que a testemunha diz ter visto antes de filmar. Os dois lados falam de coisas diferentes.
A própria contagem do filme. O relatório do Painel Robertson menciona cerca de 1.600 quadros. O Relatório Condon trabalha com aproximadamente 1.200, correspondendo a cerca de 75 segundos a 16 quadros por segundo. Newhouse teria exposto cerca de 12 metros de filme — o que, em bitola 16mm, corresponde a algo próximo de 1.600 quadros. A discrepância nunca foi resolvida nos documentos públicos.
O arquivo divulgado em 2026 traz 55 segundos de imagens de céu. Menos do que qualquer uma das duas contagens.
O que a divulgação de 2026 acrescenta
A sexta leva do PURSUE é a mais documental até agora. Além do filme, foram publicados três registros diretamente relacionados ao caso:
| Registro | Descrição no catálogo oficial |
|---|---|
| DOW-UAP-D102 | Arquivo do Projeto Livro Azul sobre o filme de Tremonton, Utah — documento datilografado com anotações manuscritas |
| DOW-UAP-D103 | Arquivo fotográfico do Projeto Livro Azul relativo ao filme de Tremonton |
| DOW-UAP-D104 | Registro funcional final de Delbert C. Newhouse, Marinha dos EUA (1957) |
Pela primeira vez, o dossiê de investigação e o material filmado estão disponíveis ao público no mesmo lugar.
Isso muda a natureza do que é possível pesquisar. Até aqui, quem quisesse estudar Tremonton dependia das citações feitas no Relatório Condon, no relatório do Painel Robertson e em livros de pesquisadores. Agora é possível ler os papéis de trabalho.
O que se pode afirmar
Documentado. Um suboficial da Marinha com formação em fotografia filmou pontos luminosos em movimento sobre Utah, em 2 de julho de 1952. O filme existe, foi entregue às autoridades e foi analisado por laboratórios da Força Aérea e da Marinha, pelo Painel Robertson e pela comissão Condon. As análises discordaram entre si.
Relatado. A descrição de dez a doze objetos metálicos com formato de dois pratos sobrepostos, observados mais de perto antes do início da filmagem.
Contestado. A conclusão do laboratório da Marinha de que os objetos seriam luminosos por si mesmos e estariam sob controle inteligente.
Hipótese em aberto. A explicação por gaivotas, proposta em 1953 e mantida em caráter provisório pelo Relatório Condon.
Sem sustentação nos documentos. Qualquer afirmação de que o filme mostre uma aeronave de origem não humana. Nenhum dos quatro exames oficiais chegou a essa conclusão, incluindo o mais favorável deles.
Conclusão
O que o Departamento de Guerra devolveu ao público em setembro de 2026 é um objeto curioso: 55 segundos de céu, uma emenda abrupta, uma máquina de costura e uma cartela preta.
É pouco, e é revelador. O caso mais analisado da ufologia americana dos anos 1950 sobreviveu como fragmento em um rolo remontado, riscado por incontáveis projeções, sem as paisagens de Idaho que o acompanhavam.
Setenta e quatro anos de disputa científica repousam sobre esse material.
E a pergunta que os quatro exames oficiais não conseguiram resolver continua sendo a mesma de 1952: aquelas eram gaivotas refletindo o sol do deserto, ou outra coisa?
Fontes e referências
Registro analisado
DOW-UAP-PR159 — Historical Film of Reported UFOs, Utah, 1952. Departamento de Guerra dos Estados Unidos, divulgado em 18 de setembro de 2026, sexta leva do programa PURSUE. Domínio público.
Documentos relacionados na mesma divulgação
DOW-UAP-D102, DOW-UAP-D103 e DOW-UAP-D104 — arquivos do Projeto Livro Azul sobre o caso e registro funcional de Delbert C. Newhouse.
Fontes primárias históricas
Report of the Scientific Advisory Panel on Unidentified Flying Objects (Painel Robertson), 14 a 18 de janeiro de 1953 — preservado como Apêndice U do Relatório Condon.
Scientific Study of Unidentified Flying Objects (Relatório Condon), Universidade do Colorado, 1968 — Caso 49: Tremonton, Utah.
Acervo documental
The Black Vault — arquivo digitalizado do Projeto Livro Azul, incluindo o material de Tremonton.